Blasfemar, para aqueles tipos à antiga que não estão perfeitamente convencidos de que Deus não existe, mas que, embora se estejam nas tintas para Deus, o sentem de vez em quando entre a carne e a pele, é uma bela actividade. Vem um acesso de asma, e o homem começa a blasfemar com raiva e tenacidade: com a intenção bem nítida de ofender esse Deus eventual. Pensa que, afinal de contas, se ele existe, cada blasfémia é uma martelada nos pregos da Cruz e um desgosto infligido a Deus. Depois, Deus vingar-se-á, é o seu sistema — fará o diabo a quatro, enviará mais desgraças, mandar-nos-á para o Inferno, mas, mesmo que ponha o mundo de pernas para o ar, ninguém o libertará do desgosto experimentado, da martelada sofrida. Ninguém! É uma bela consolação. E, é claro, isto revela que Deus não previu tudo. Vejam: é o patrão absoluto, o tirano, o tudo; o homem é uma merda, um nada e, no entanto, tem esta possibilidade de o irritar e aborrecer e de lhe estragar um instante da beata existência. É, na verdade, o meilleur témoignage que nous puissons donner de notre dignité. Como é que Baudelaire nunca fez uma poesia a este respeito?
Cesare Pavese, in O Ofício de Viver
Mas para Deus a blasfémia não existe. Não tem sentido. É um absurdo. Ou então é ainda palavra de Deus. Como poderia não o ser? Se Deus é o verbo e o silêncio, o todo e o nada. E assim o homem crucifica o homem, a vida mata a vida. Não temos perdão, não podemos tê-lo aos nossos olhos. Aos olhos de Deus, ao contrário, tudo o que fazemos é nada e apenas o nada que não alcançamos nos daria o Deus que somos. A perfeição. Blasfemando o homem não alcança Deus. Como o poderia? O homem só alcança o homem. Os homens só se alcançam uns aos outros. E, apesar de tudo, perdem-se. Assim se vinga Deus dos que de Deus se julgam vingar. O Deus que não somos. O Deus que não podemos deixar de ser.
Dito por: jctp no dia 11 de agosto 2004, às 00h53
Vejo que á compraste esse magnífico livro que é o "Ofício de Viver". É um autêntico "Livro do Desassossego", e retornarás a ele vezes sem conta - tal como esse, pode-se abrir em qualquer página que se encontra uma pérola de pensamento.
Muitos deles nada lineares, nada directos, muito subtis, mostrando desta forma faces da realidade verdadeiramente originais.
Quanto a esse excerto, não me lembro de o ter lido (também ainda só devastei cerca de uma terça parte desse livro), mas é fantástico - o Deus, humano, que se vinga - só poderia ser, Deus é uma invenção do homem.
ah não.... não o comparo com o livro do Desassossego.
é o diário de um homem triste, amargurado, e que se entregou a isso.
gosto do livro, mas não consigo olhar para ele apenas como um livro. e sinto pelo homem...
Ao blasfemar contra Deus, o ser humano revolta-se contra a sua pr'opria invencao. Contorce-se o ser humano, apertados os seus campos de energia dentro desse denso veiculo fisico. Velados os grandes misterios, resta-nos recuperar com humildade mas profunda determinacao o espirito do desconhecido.
Parabens pelo seu blog! E' de uma grande qualidade neste mar bloguiano de insuficiencia e, muitas vezes, imbecilidade.Se puder visitar o meu, agradeco.
Saudacoes amigas
Mariana Inverno
www.ordemnascente.blogspot.com
Gostei muito de descobrir este blog e do que por aqui li. Vai-se tornar um blog de visita certa.
Dito por: hfm no dia 14 de agosto 2004, às 19h44Leituras bem escolhidas, como é hábito. Pavese, que me encanta nos seus romances quase novelas, na sua poesia, neste diário que tantas vezes nos revela porque é criada a beleza e a que custo. Deixo-lhe aqui um poema da autoria de Nuno Dempster.
CESAR PAVESE
Quando eu me alimentava da luz difusa
que o fluir melancólico das palavras
bebia nas colinas de S. Stefano
e me abria esse mundo ao meu que em mim
guardava à espera, lendo-nos aí,
na água do meu rio que na outra banda
gerara uma paisagem do Piemonte,
semelhante à das folhas brancas que em Turim
certamente durante a noite preenchia
com os vultos solares das raparigas,
tudo menos palavras, imagens virtuais,
intocáveis, caminhos, vinhas, risos
que nele em mim eu sei havia
por tanto nos faltarem no silêncio
inóspito de um quarto com mesa,
onde debruçado ele escrevia e eu lia,
amando as personagens que fora buscar
a manhãs impossíveis para ambos,
parecidas no som dos sinos solitários
de onde os olhos se alongam
até saberem ser comboios que partiam.
Hoje vivo, cinquenta e três anos depois,
com a mulher da voz rouca que perdemos
e com o riso da outra que não ouvimos mais,
chamava-se Constance e representava
a nossa vida nela que a tive minha,
já eu sabia há muito que Pavese acabara
num hotel de Turim com barbitúricos,
deixando o sol oblíquo
que à flor dos olhos sempre me acompanha.
brigada, Musas :))))
Dito por: dolphin.s no dia 16 de agosto 2004, às 11h59