Douglas, Tom e Charlie vinham a arfar pela rua sem sombra.
— Tom, conta-me agora a verdade.
— Mas qual verdade?
— Que foi que aconteceu aos fins felizes?
— Estão a dá-los nas matinées dos sábados.
— Sim, mas e na vida?
— Tudo o que sei é que me sinto bem ao ir para a cama à noite, Doug. É um fim feliz, uma vez ao dia. Na manhã seguinte, acordo e pode ser que as coisas corram mal. Mas basta-me lembrar-me de que à noite irei para a cama e que só por eu estar deitado um bocado tudo ficará bem.
— Estou a falar do Sr. Forrester e da Sr.a Loomis.
— Não podemos fazer nada; ela está morta.
— Bem sei! Mas não achas que houve uma pessoa que cometeu um erro naquilo?
— Queres dizer o facto de ele pensar que ela tinha a idade do retrato quando, na verdade, já tinha um milhão de milhões de anos? Não, senhor, acho que estava muito certo!
— Muito certo porquê, que diabo?
— Nestes últimos dias, o Sr. Forrester contou-me alguma coisa agora, alguma coisa depois e eu acabei por juntar tudo... eh rapaz, o que eu chorei... Nem mesmo sei porquê. Não ia modificar as coisas nem um bocadinho. Se as modificássemos, de que haveríamos nós de falar? De nada. E além disso eu gosto de chorar. Depois de chorar um bom pedaço, é como se fosse manhã outra vez, começo o dia novamente.
— Agora já ouvi tudo.
— Mas a gente não confessa que gosta de chorar. Ora nós choramos um bocado e logo tudo se compõe. Aí está o teu fim feliz. Ficas em condições de voltar cá para fora e andar outra vez por aí com os outros. E isso é o princípio de sabe-se lá o quê! De modo que agora o Sr. Forrester vai pensar em tudo muito bem e vai ver que não há outro remédio senão um bom choro para depois olhar à sua volta e perceber que é outra vez manhã mesmo que já sejam cinco horas da tarde.
— Isso a mim não me parece um fim feliz.
— Uma boa noite de sono ou dez minutos de choro ou uma boa dose de gelado de chocolate, ou as três coisas juntas, são bons remédios, Doug. Quem to diz é o Dr. Tom Spaulding.
Ray Bradbury, in A Cidade Fantástica
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOL
e uma tortas dan-cake, chocolate branco, gelado de chocolate...
(stouts é que não!)
:P
beijo
Dito por: margarete no dia 6 de agosto 2004, às 17h09acho que o dr. Tom concorda contigo ;P
Dito por: dolphin.s no dia 6 de agosto 2004, às 21h22
Quanta verdade neste texto !
Depois da tempestade vem a bonança... todos os dias (ou todas as noites, melhor dizendo).
Nem sempre as noites bastam, mas a questão do choro, metafórico ou não, é bem verdadeira.
Muitas formas de se interpretar este texto, tanto em termos de finais felizes - afinal, o final é algo que não existe - só a própria morte é um final, afinal, e mesmo esta pode transformar toda uma vida de infelicidade em algo feliz ou uma vida de felicidade em algo infeliz, num momento de deslumbração da "VERDADE".
Gostei, pronto. ;)
Dito por: pns no dia 9 de agosto 2004, às 22h28 Tenho a absoluta certeza de que os fins felizes estão quando fazemos o bem, sem importarmo-nos a quem. Os fins felizes por vez vem-nos sempre visitar, mas, é que estamos tão ocupados em preocuparmo-nos se eles vêem ou não, que nem se quer os vemos. A ansiedade e o medo de perdê-los, faz-nos ignorantes e incapazes de atraí-los e, então, limitammo-nos a nós mesmos, esquecendo de ver o óbvio na menor rotina.