«Conversámos. Muito lúcida, a senhora abriu-se comigo, confiadamente, apesar de nunca nos termos visto antes. Em certo instante, inesperadamente, levantou-se, pegou-me na mão e, quase em segredo, disse-me: ‘Venha comigo, quero mostrar-lhe uma coisa.'
Conduziu-me a outra sala, abriu um armário e tirou de dentro uma guitarra portuguesa muito antiga, de pequeno formato, embrulhada, carinhosamente, numa bolsa bordada: ‘Esta era a guitarra de minha querida mãe.'
A senhora tinha os olhos cheios de lágrimas e um ar de profundo recolhimento. Explicou-me que aquela guitarra, onde há anos não mexia, lhe vinha lembrar, vivamente, os padecimentos morais de sua mãe. O pai fora um indivíduo extremamente severo, duro, o único em casa a tomar decisões, nem sempre as mais humanas.
A mulher não se atrevia a contrariá-lo. Transformou-se, assim, ao , longo dos anos, numa presença silenciosa e triste, entre a família. Então, quando o pai não estava, muitas vezes a filha ouviu a mãe cantar baixinho, por entre lágrimas, quadras improvisadas sobre as cordas gementes da guitarra.»
Carlos Paredes ao Jornal de Letras
;'-(
Dito por: miguel no dia 25 de julho 2004, às 01h58«Um homem tem todas as idades, desde que o mundo existe, desde que a vida surgiu»
Carlos Paredes