«Um exercício interessante», disse, «é tentar ver os factos através do olhar da vítima. Por exemplo, o peixe que estamos a comer... generoso pargo, não é?... Já tentou ver este nosso jantar na perspectiva dele?»
Félix Ventura olhou para o pargo com uma atenção que até ao momento o pobre peixe lhe não merecera; depois, horrorizado, afastou o prato. O outro prosseguiu sozinho:
«Julga que a vida nos pede compaixão? Não creio. O que a vida nos pede é que a festejemos. Voltemos ao pargo. Se fosse este pargo preferia que eu o comesse com desgosto ou com alegria?»
O albino ficou calado. Ele sabe que é um pargo (somos todos), mas prefere, creio, que não o comam nunca. O estrangeiro continuou:
«Uma ocasião levaram-me a uma festa. Um velho festejava o seu centésimo aniversário. Quis saber como é que ele se sentia. O pobre homem sorriu-me atónito, disse-me, não sei bem, aconteceu tudo demasiado rápido. Referia-se aos seus cem anos de vida e era como se estivesse a falar de um desastre, algo que sobre ele tivesse desabado minutos antes. Às vezes sinto o mesmo. Dói-me na alma um excesso de passado e de vazio. Sinto-me como esse velho.»
José Eduardo Agualusa, in O Vendedor de Passados
dolphin, tu não me tentes !!!!!
(não queria ler esse livro agora, e estás-me a forçar a ir comprá-lo)
Esse texto está muito bom, embora misture (ou tu misturas, esse texto poderia ser partido em 2) duas coisas: colocarmo-nos na perspectiva de outro, e olharmos para o passado (embora sejam ambos, por si só, perspectivas).
Mas ambas, embora simples, são bem verdadeiras e deixam-nos logo a pensar sobre a relatividade da importância dos nossos actos.
Dito por: pns no dia 23 de julho 2004, às 12h02o texto é tal qual o que está aqui :)
o livro é uma mistura de sentimentos... e é lindo, como toda a escrita do Agualusa, aliás...
comecei ontem... estou quase a acabar ;p
Dito por: dolphin.s no dia 23 de julho 2004, às 12h15também gostei do texto (do Agualusa só li algumas crónicas) e já estou como o pns: "tu não me tentes!" ;)
(pequena reflexão: colocando-se na pele do pargo ('vítima' da predação humana), ou do velho ('vítima' da voragem do tempo), a personagem parece querer entender a sua 'vida', melhor,a sua relação com a vida, o 'vazio'... sair de si e pensar o outro para voltar a si?...)
tambem eu devorei o vendedor de passados. é lindo. mágico.
Dito por: sandra no dia 30 de julho 2004, às 17h30