agosto 23, 2004

Saber / Sentir II

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962A dimensão do «eu» original é a dimensão do vívido, do sentido, que ou se não esclarece na razão ou, esclarecendo-se, guarda ainda um domínio que é precisamente o da evidência, da adesão absoluta, da convicção do sangue, do ver. Mas como implicar nisso um combate à razão? Além de tudo o mais, para inúmeras evidências do que nos não ê indiferente (e é dessas que falamos, não das evidências «indiferentes» como as da Matemática — se o são) para inúmeras evidências, a razão pode actuar com uma força flagrante, dominadora, ou ao menos como uma espécie de propedêutica da convicção. É «demonstrando-me» o crime do nazismo, do fascismo, que eu posso acabar por ver que a ditadura fascista é criminosa. É demonstrando-me as origens da vida, que a solução religiosa pode recuar diante de mim. Mas se tal demonstração valesse decisivamente por si, como explicar o crente tão informado como eu e tão capaz como eu? Se a verdade ou a mentira de uma doutrina política se demonstra por si, pelo exame aturado dos princípios e da sua aplicação, como explicar que essa doutrina seja uma evidência de justiça para uns e uma evidência de injustiça para outros? Há um limite na eficácia do acabar de «demonstrar» que é o limite da eficácia do começar a sentir.


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Publicado por dolphin.s em agosto 23, 2004 07:10 PM
Comentários

Um prefácio muito bom e curioso, este feito por Virgilio, onde nos fala de Husserl, de Heidegger terminando em Sartre. Um abordagem simples, e muito bem escrita. Quem dera a muitos professores de Filosofia Universitários que o fizessem com Virgilio o vez: de forma clara, embora não muito aprofundada e principalmente dando uma prespectiva pessoal acerca destes autores. Parabéns Silêncio.

Dito por: Horácio no dia 28 de agosto 2004, às 01h09

Um prefácio muito bom e curioso, este feito por Virgilio, onde nos fala de Husserl, de Heidegger terminando em Sartre. Um abordagem simples, e muito bem escrita. Quem dera a muitos professores de Filosofia Universitários que o fizessem com Virgilio o vez: de forma clara, embora não muito aprofundada e principalmente dando uma prespectiva pessoal acerca destes autores. Parabéns Silêncio.
http://a-fonte.blogspot.com/

Dito por: Horácio no dia 28 de agosto 2004, às 01h10

"a Fé é toda certeza que não precisa ser comprovada"

Gostei do seu texto então resolvi dar um Oi.

Dito por: Tiago no dia 28 de agosto 2004, às 19h33

Oi!

essa Fé, essa certeza. me nada um pacotinho, sff.

Obrigado

Dito por: jm no dia 30 de agosto 2004, às 12h57

O saber e o sentir, irreconciliáveis do princípio ao fim da vida. Sentir para saber, sim, mas saber para sentir ? E o saber vindo do sentir, que é aquele que realmente nos marca, que nos é "evidente" face á qualquer lógica racional que consideramos contrária face ao sentir.

E o saber que muitas vezes queremos "impor" ao nosso sentir, mas que o nosso sentir não aceita, fica-lhe decalcado e cai rapidamente sem darmos por isso.

Saber consolidado pelo sentir, mas o sentir que é algo que faz parte, de forma única, do carácter de cada um.

Eu sinto, logo existo - expressão trivial que se poderia seguir, fruto da procura do saber como ajuda à compreensão da nossa exist~encia, saber esse cujo principal alicerce é o sentir.

Ou sê-lo-á apenas numa primeira fase, e o processo de amadurecimento consiste em abstrairmo-nos de nós próprios para chegarmos à verdadeira sabedoria, fora das fronteiras do sentir - será isso ?

Dito por: pns no dia 1 de setembro 2004, às 21h51

Sentir e existir não são a mesma coisa? Existo, sinto, ajo...Acho que o ser humano é permanentemente alienado, somos vários e unos ao mesmo tempo! parece que a nossa essência vive dentro de nós e tambem fora, como um espirito errante. Gosto muito de Vergílio Ferreira. Bem escolhido Silêncio

Dito por: ricardo marques no dia 28 de outubro 2004, às 18h11