E toda a questão do «racional» e «a-racional», toda a questão do chamado «irracionalismo» existencial (que dirá Sartre, o «cartesiano»?) assenta fundamentalmente nisto: em que saber é nada ou muito pouco para uma questão do sentir. Sei que a pessoa que sou, o carácter que tenho é talvez possível explicá-lo totalmente pela genética, pelo ambiente e educação e condicionalismo económico: mas no acto de ser o que sou, o que sou é incondicionado. Um modo de ser que eu tenha, um tique, se se quiser, descoberto por mim nos meus pais, não é menos meu, não é menos eu, incondicional, absoluto, no acto de ser esse tique, esse modo de ser: nenhum filho tem pais... Se um tique herdado o sinto como tal (dado que isso seja possível) é que me operei desdobramento e sinto em «má-fé». Que importa explicar-se o amor, a alegria, uma... dor de dentes? No amor, na alegria, sou eu amando, alegrando-me; e a dor de dentes só existe na medida em que eu a sou. Que importa demonstrarem-nos a exactidão de uma doutrina? Uma doutrina só me é exacta na medida em que a sinto, a vejo tal. E acaso se necessita sempre para isso de um argumento novo? Acaso os mesmos argumentos, exactamente os mesmos, sem que um novo esclarecimento os ilumine, não podem deixar-nos indiferentes ou queimar-nos de evidência? Que significa a explicação do globo ocular e de toda a estrutura fisiológica da vista para a compreensão do acto de ver?
Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre
Sartre, sempre. Mas Nietzsche foi feito voz para o fascismo, melhor dizendo, nacional nacionalismo. (...)
Bem hajam.
Dito por: rilka no dia 26 de julho 2004, às 23h29tudo o que está escrito é passivel das interpretações que se lhe quiser dar.
é demasiado tentador e demasiado fácil...
também a música de Wagner lhes serviu o mesmo propósito.