julho 20, 2004

Absoluto/Relativo

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962É evidente que depende de mim, do que sou, da totalidade que me descubro, o sentir ou não o apelo de um Absoluto, por mais que eu admita que esse Absoluto não existe. Ê evidente que se eu sinto que a verdade a que me dou não é «a» verdade, me viverei indiferente em relação à verdade que me conhece. E neste caso, sim, o relativismo é-me um problema. Mas não mo é na medida em que eu adiro a uma verdade, à verdade que me conhece, e «sei» apenas que essa verdade de hoje será o erro de amanhã. Pois em relação a quê estabeleço eu já a mentira de agora? Em relação com a verdade de amanhã? Mas a verdade de amanhã será também o erro de depois... Ser relativista só porque se sabe que a verdade se altera, é adoptar simultaneamente um ponto de vista real de uma adesão e um ponto de vista ideal de não adesão. Aliás, rigorosamente, se não ê por «saber» que a minha verdade de hoje é o erro de amanhã, que eu sinto o «relativo» dessa verdade que me empolga — para o verdadeiro «relativista» o problema verdade-erro não existe simplesmente como tal. Se eu sinto que a minha verdade de hoje é o erro de amanhã, não sinto então tal verdade como verdade. Estou «situado» e é em função disso que me exprimo no que exprimo. Mas se eu me implico no que digo, só absurdamente, contraditoriamente, posso imaginar-me a exprimir um juízo que não tenha em conta a pessoa que sou como julgador: «Se tento imaginar marcianos ou anjos ou um pensamento divino, necessário é que este pensamento marciano, angélico ou divino figure no meu universo e o não faça explodir». Tal como para um problema de adesão estética— onde é evidente que a «universalidade» de um juízo de gosto é um «como se» — a verdade que me empolga sei-a um «como se» também; mas na medida em que a vivo, ela é um absoluto. Que me importa admitir (ou mesmo ter a certeza) de que a Guernica amanhã será menosprezada, se ela representa hoje para mim uma evidência de beleza? O absoluto para nós está no tempo, diz Jaspers, e portanto desaparecendo. Só pois numa dimensão intemporal é que o relativo existe, «por ser meramente geral, meramente exacto, meramente válido». É evidente que o conflito absoluto-relativo se estabelece sobretudo ou apenas no domínio das verdades que nos não são indiferentes, essas que jogam a nossa pessoa inteira, o nosso destino. Mas ê precisamente nestas que uma vez aceite uma, por mais que admitamos ser ela temporária, a vivemos como absoluta e a não imaginamos o erro de amanhã, exactamente porque não podemos imaginar a pessoa que não somos. Saber que uma obra de arte por mim hoje admirada será esquecida amanhã em nada pode alterar-me a adesão que me promove. Deste modo, adverte-nos ainda Jaspers, as verdades contradizem-se; mas para participar delas, para realmente saber o que elas são, tenho de identificar-me com uma e não conhecê-las a todas. De uma verdade que é nossa não podemos sair, não podemos pois vê-la de fora ou simplesmente «conhecê-la», já que não podemos sair dela. Porque sair dela seria cair no vazio. E exactamente porque não posso sair da minha verdade (porque seria sair de mim) eu não posso, a rigor, dizer sequer que há muitas verdades, que cada uma das outras é «verdadeira»: posso apenas tentar abordá-las pela «pergunta», tentar o que Kierkegaard chama a «comunicação indirecta». A verdade «existencial», que é a que me joga todo, a que vivo, a que sou, envolve pois o paradoxo de ser sentida como única, sabendo-se todavia que há outras verdades.


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Publicado por dolphin.s em julho 20, 2004 10:41 AM
Comentários


Ufa ! É preciso ter muito estômago e fôlego para ler e digerir esse excerto, no entanto, no seu todo arrebata-nos com algo tão simples, mas, simultaneamente, tão assustador.

A Verdade, a nossa Verdade, temos que a sentir. Mas amanhã sentiremos outras coisas, logo, outras verdades. Se bem que há coisas que as sentiremos sempre, logo, as consequentes verdades existirão sempre também.

No entanto, se tivéssemos outra vida, provavelmente as nossas verdades seriam outras.

Por isso temos que respeitar as verdades dos outros assim como os outros devem respeitar as nossas.

Mas, onde está a verdade no meio disto tudo ? É isto ? Não é fácil aceitar isso, pois aceitá-lo é definirmo-nos como seres perenes e mortais... muitas vezes preferimos a ilusão.

Dito por: Paulo Silva no dia 20 de julho 2004, às 12h23

bem, d., o feedback já fez o seu percurso!

haja sintonia!


a sério, a 'situação', deixou-me num certo contentamento do comungar

:*

Dito por: margarete no dia 20 de julho 2004, às 14h08

"aceitá-lo é definirmo-nos como seres perenes e mortais..."


e somos outra coisa? ;)

Dito por: dolphin.s no dia 20 de julho 2004, às 14h39

aceitar a metamorfose de borboletas e sereias, seres perenes e mortais

:P

(pró caraças com o pudor!)

Dito por: margarete no dia 20 de julho 2004, às 14h55

O vosso blog é particularmente bonito. Parabéns.

Dito por: rilka no dia 20 de julho 2004, às 22h47

obrigada rilka :)

Dito por: dolphin.s no dia 20 de julho 2004, às 23h07

Esta é a, excelente, edição em que o prefácio é maior que o texto de Sartre.

Dito por: Ardelua no dia 21 de julho 2004, às 17h27

muito maior ehehehe

e um excelente prefácio :)

Dito por: dolphin.s no dia 21 de julho 2004, às 17h56