julho 07, 2004

Objectivo/Subjectivo

O Existencialismo é um Humanismo, Jean-Paul Sartre - Editorial Presença, Fevereiro 1962Porque um vício de raciocínio «objectivo» (que um Ponty chama «hipócrita») leva-nos a esquecermos que todo o pensar implica um ser pensante, que não observamos o mundo com o absoluto espírito divino, que toda a observação nos implica a nós observadores, que quando falamos em «objectividade» esquecemos que tal objectividade veio ao mundo através de nós, ou seja, de uma «subjectividade». A definição de verdade pela adaequatio implica que de um lado veríamos a inteligência como alheia, e do outro o objecto como alheio também, isto é, sem que nesse ser implicássemos que... o víamos, ou seja, o tínhamos já interpretado. E é exactamente porque já o interpretámos, é exactamente porque toda a percepção já é intelecção (visto que nós vemos decifrando, ajuizando) é exactamente por isso que a adaequatio já assenta num outro juízo anterior que nós estabelecemos com precisamente a decifração do mundo, a nossa orientação nele, que desde a hora mais remota da consciência nós fomos estabelecendo. Assim «da evidência predicativa (a que afirma reflexivamente um predicado de um sujeito) somos remetidos à evidência antepredicativa como condição da racionalidade do Logos» . Ao longo da nossa vida consciente mil formulações de juízos se nos foram sedimentando, passando do que fora uma «génese activa» a uma «génese passiva» , do que fora originariamente uma actividade consciente ou semiconsciente a qualquer coisa como a inconsciência. E é porque esquecemos essa formação originária que podemos formular juízos predicativos, tematizados, como se não assentassem em evidências primeiras, tão indiscutíveis (porque passadas ao nosso sangue) que as esquecemos como estabelecidas por nós em função de uma ordenação do mundo. Porque — será preciso dizê-lo? — somos nós que distribui-mos a «ordem» e é assim um pouco ingénua a afirmação de que o universo está maravilhosamente ordenado. Bergson o disse: se vivêssemos numa desordem, nós a interpretaríamos como ordem. E a experiência, por exemplo, da inversão das imagens com óculos que assiduamente usemos, mostra que tal inversão se converte em normalidade, em correcção, ao fim de algum tempo.
Assim, pois, em face da matéria insignificante, de um mundo sem significação, o homem levanta-se como de algum modo o seu criador.


Vergílio Ferreira
Prefácio/Ensaio para "O Existencialismo é um Humanismo", de Jean-Paul Sartre

Publicado por dolphin.s em julho 7, 2004 10:33 AM
Comentários

Tenho nas estantes esse livro velhinho, e também os três volumes, muito coçados, de O Homem sem Qualidades que estou a reler, por tê-lo encontrado aqui.

Dito por: mb no dia 7 de julho 2004, às 20h35

Que bom!!! :))))

O Homem sem Qualidades é fabuloso! Um tratado sobre o homem, o mundo, a natureza humana.

Este do Sartre é a 1ª edição da Editorial Presença - Feveiro de 1962. Uma prenda recente :)
Foi re-editado recentemente na Bertrand.
Estou a gostar muito de aprender com o Vergílio Ferreira...

Dito por: dolphin.s no dia 7 de julho 2004, às 21h20

heeeeeeeeeeee

agora é que vi, tenho vindo aqui aos saltitos...

está a capa verdadeirinha da preciosidade!!!

txiiiiiiii

respeitinho perante os tesouros :P

Dito por: margarete no dia 9 de julho 2004, às 15h27

txiiiiiiiii

tás a gostar do vergílio!... mais uma estrelinha que levas no caderninho da minha consideração :D

(como se isso fosse necessário...)

;*

Dito por: margarete no dia 9 de julho 2004, às 15h29