julho 14, 2004

a moral II

Para ele, a moral não era nem dominação nem fria sabedoria, mas sim a totalidade infinita das possibilidades de vida. Acreditava numa possível gradação da moral, acreditava na existência de degraus no uso que dela se faz e não apenas, como é hábito, no conhecimento que dela se tem, considerando-a uma obra acabada para a qual os homens ainda não estivessem suficientemente puros. Acreditava ma moral, sem acreditar em nenhuma moral definida. Vulgarmente, entende-se por moral uma soma de normas policiais que servem para manter a ordem na vida; como nem sequer a vida lhes obedece, parecem impossíveis de observar à risca e, consequentemente, desta forma mesquinha, assimiláveis a um ideal. Mas não é necessário reduzir a moral a isso. A moral é imaginação. Era, isto que ele queria demonstrar a Ágata. E, também, que a imaginação não é o despotismo. Se confiamos a imaginação ao despotismo arrependemo-nos disso. As palavras vibravam na boca de Ulrich. Estivera prestes a evocar uma diferença demasiado imponderada, isto é, que as diversas épocas desenvolveram a inteligência à sua maneira, enquanto que, também à sua maneira, fixaram e paralisaram a imaginação moral.

Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em julho 14, 2004 10:30 AM
Comentários

"A moral é imaginação. (...) E, também, que a imaginação não é o despotismo. Se confiamos a imaginação ao despotismo arrependemo-nos disso. As palavras vibravam na boca de Ulrich. Estivera prestes a evocar uma diferença demasiado imponderada, isto é, que as diversas épocas desenvolveram a inteligência à sua maneira, enquanto que, também à sua maneira, fixaram e paralisaram a imaginação moral."

aplicável, aplicável... à realidade, à imaginação (já sabes que torci e distorci...)

:*

(sódades)

Dito por: margarete no dia 14 de julho 2004, às 16h35

E talvez também, que quanto mais elaborada, mais inacabada moral; Musil sempre fértil.

Dito por: José no dia 15 de julho 2004, às 12h40

Cá estou a reler devagar O Homem sem Qualidades, a mais de meio do primeiro volume, a par da releitura também de fio a pavio de toda a obra de Camões (Lello Editores)que fazia solta e repetidamente como quem lê a Bíblia, e mais dois livros de ensaios, um de história, outro de poesia. Bom blogue o seu, é preciso dizê-lo de vez em quando.

Dito por: Musas Esqueléticas no dia 23 de julho 2004, às 00h58

brigada Musas :))

um aviso sobre O Homem sem Qualidades:
Deves ter a mesma edição que eu, da Livros do Brasil. O último capítulo do 1º volume está errado: é na verdade o primeiro do 3º :/

Dito por: dolphin.s no dia 23 de julho 2004, às 09h39