Para Walser tornara-se evidente que uma existência era composta por uma sucessão de comportamentos dirigidos às coisas e aos outros homens, e que esses comportamentos, esse agir — por grosseiro que fosse — não era, objectivamente, mais do que um conjunto de movimentos muscularmente bem definidos, localizados facilmente num mapa anatómico. A biografia de um Homem era, no fundo, o que os seus músculos haviam feito.
Cada acontecimento individual poderia assim ser, não reduzido, mas assemelhado — era o sinal de igual, de idêntico, e não uma diminuição, não um roubo — poderia ser assemelhado, então, a um somatório de gestos, tal como uma máquina, por mais complexa que fosse, e por mais espantosas que fossem as suas acções, não deixava de ser um somatório de peças que sob determinadas circunstâncias agiam. Ele não considerava justo que o Homem, apenas por conseguir reflectir sobre o mecanismo da sua existência, pudesse orgulhar-se de uma diferença absoluta em relação às máquinas. Conseguir distanciar-se do mecanismo que o constitui não faz o mecanismo deixar de existir. Uma existência humana era, assim, para Walser, um somatório simples. Era o sinal mais que predominava em qualquer ser vivo, e a morte era espantosamente assustadora precisamente porque representava a interrupção abrupta de um somatório que, a certa altura, todos eram levados a pensar ser interminável. Como se cada um, a dado momento, considerasse o seu corpo, por outras palavras: um somatório imortal de comportamentos. Ninguém, neste século, depois de sucessivas gerações terem desaparecido — e mesmo em plena guerra, onde a morte era mais visível que nunca —.deixava ainda de ser surpreendido (estava disso convencido Walser) pela sua própria morte. Somos sempre surpreendidos! Como se nos considerássemos no direito, depois de tantos dias de existência, de não sermos interrompidos.
Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser
É fenomenal, esse excerto - bem que me lembro dele - a vida como um somatório imortal de comportamentos - basta vivermos mais um dia para que esse somatório seja diferente.
Nós temos muitas vezes a ilusão que somos assim e assado, que nos conhecemos muito bem... mas no minuto seguinte agimos ou pensamos algo com o qual nos surpreendemos.... por isso é bem lucida essa definição apresentada nesse excerto.
Dito por: pns no dia 21 de julho 2004, às 15h08o homem é o conjunto dos seus actos. aquilo que somos hoje, pode mudar já, daqui a nada, amanhã, basta uma decisão, um gesto, uma acção :)
Dito por: dolphin.s no dia 21 de julho 2004, às 15h12Como isso é tão cruelmente verdadeiro e assustador!
Hoje, um beato ! amanhã, um assassino !
A razão controla os limites, mas os limites são uma rede com imensos furos.
Dito por: pns no dia 21 de julho 2004, às 19h22ah! mas libertador também!!!
a certeza que só tu podes decidir o que serás! :))
Sim.
Isso é o melhor de tudo. Inconscientemente, esse "poder" é dos que mais me move e me motiva. Saber que, a qualquer momento, me posso "superar" a mim próprio e à porra das expectativas e imagens que os outros têm de mim próprio.
Que gozo que isso me dá ! E quantas vezes o aplico !
A face boa e a face má da mesma moeda ;) Se bem que essa face má não é propriamente má, eu é que digo que é má por temer os seus potenciais aspectos negativos - quando tu fazes uma coisa que não querias fazer
Dito por: pns no dia 21 de julho 2004, às 19h53estamos sempre sujeitos a "fazer merda".
somos humanos. o segredo é aceitar isso como isso como aceitamos a "merda" dos outros. porque somos mais tolerantos, por principio, com os erros dos outros do que com os nossos?
isto faz sequer sentido?
faz tanto como aceitarmos de bom grado a humildade em alguém e catalogá-lo automáticamente como "boa pessoa" por causa dessa humildade, e olharmos de lado para alguém que não problema em assumir-se como bom em algo. é imediatamente catalogado de arrogante, independentemente de acharmos que de facto ele é "bom".
porque não pode ou deve alguém, afirmar-se bom em algo, sabendo que o é?
é um juizo de moral muito medíocre, methinx ;)
"e olharmos de lado para alguém que não problema em assumir-se como bom em algo. é imediatamente catalogado de arrogante, independentemente de acharmos que de facto ele é "bom".
porque não pode ou deve alguém, afirmar-se bom em algo, sabendo que o é?"
sim, porquê? talvez porque são mais os falsos "bons" do que os verdadeiros "bons". Talvez por isso o tipo esguro de si e aparentemente arrogante se confunde com os outros.
Mas aí, realmente, o problema não é dele, mas de quem olha para ele e o "avalia" precipitadamente.
Dito por: pns no dia 22 de julho 2004, às 10h00saudaçoes, camarada!!!
daki zvezda (sou novo nestas andanças), gostei mto do conteudo do teu blog...daí estar aki para te convidar a vistar: http://massa-resistente.blogspot.com espero que gostes e participa!
obrigado
Fica bem