junho 07, 2004

pecado

o pecado é o artifício mais perigoso e mais nefasto da interpretação religiosa. Sofrendo de si mesmo, desta ou daquela maneira, mas sempre fisiologicamente, mais ou menos como um animal enjaulado, sem saber ao certo porquê e para quê, desejoso de saber com que fundamentos, porque os fundamentos aliviam, desejoso também de um remédio, de um narcótico, o homem acaba por pedir conselho a um conhecedor das coisas escondidas... E, veja-se bem, recebe um sinal, recebe do mágico a quem se dirigiu, o sacerdote ascético, o primeiro sinal sobre a «causa» do seu sofrimento: deverá procurá-la dentro de si próprio, numa culpa, num episódio do passado, deverá entender todo o seu sofrimento como um estado de punição... O desgraçado ouviu, entendeu... e agora sente-se como a galinha à volta da qual traçaram um círculo. Já não consegue sair do círculo: o doente está já transformado em «pecador»... E a partir desse momento, durante mais de dois milénios, já não nos libertamos da imagem deste novo doente, «o pecador» — será que alguma vez nos libertaremos dela?; para onde quer que nos viremos, por toda a parte encontramos o olhar hipnótico do pecador, sempre virado na mesma direcção, na direcção da «culpa», entendida como única causa do sofrimento; por toda a parte a má consciência, esse «animal execrável», para usar a expressão de Lutero; por toda a parte o passado constantemente ruminado, os factos virados do avesso, o olhar de soslaio recaindo sobre tudo o que é acção; por toda a parte a incompreensão voluntária do sofrimento transformada em sentido da vida, a reinterpretação do sofrimento em sentimentos de culpa, medo e punição; por toda a parte o chicote, o cilício, o corpo mortificado, o acto de contrição; por toda a parte as torturas que o pecador inflige a si próprio preso à roda cruel de uma consciência inquieta e voluptuosamente doentia; por toda a parte o tormento surdo, o pavor extremo, a agonia do coração martirizado, os espasmos de uma felicidade incógnita, o grito que implora pela «salvação».


Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral

Publicado por dolphin.s em junho 7, 2004 01:55 PM
Comentários

Livarmo-nos dessa sina, eis o grande desafio...

Dito por: Anadunn no dia 12 de junho 2004, às 21h07