A curiosidade das multidões é uma maravilhosa sequência de enjoo e perversão; em bicos de pés um homem alto empurra a mulher pequenina pois quer ficar triste primeiro, como se tivesse tirado antes a senha numa repartição pública; estica os pés já altos e espreita para corpos menos lógicos, pretos, mais distribuídos pelo espaço que o normal, um certo cheiro nervoso. As desgraças são benéficas para o aparecimento de Príncipes fraternos, disponíveis para exercer a civilização. Uma colossal bondade necessita de espectadores relevantes, um homem avança com gritos específicos dizendo-se médico. A multidão afasta-se, e o homem que é médico passa, orgulhoso de ter aprendido nomes secretos de medicamentos e modos exactos de segurar em instrumentos que beneficiam a cidade. Velocidade, carros buzinam, o trânsito procura o ângulo que melhor dá para os mortos, o céu minimiza os pássaros que parecem inexistentes ou mal-educados: ninguém tolera outras canções quando se está a tocar o hino ou a pensar nele, mesmo se os sons vêm de pássaros calmos, habituados à discrição e a colocar-se de lado quando os homens entre si trocam palavras fortes ou tiros.
Gonçalo M. Tavares, in A Máquina de Joseph Walser