Desde que haja fé, podemos precipitar um bom cristão ou um judeu piedoso do cimo de qualquer andar da esperança ou do bem-estar que cairá sempre, por assim dizer, sabre os pés da sua alma. Com efeito, todas as religiões haviam previsto, na explicação da vida que ofereçam aos homens, uma parte de irracional, incalculável, a que chamam os desígnios impenetráveis de Deus; se o mortal não conseguia chegar a um cálculo exacto, bastava-lhe recordar esse resto e o seu espírito podia esfregar as mãos de contente. Esta maneira de cair sobre os pés e esfregar as mãos chama-se uma «concepção do mundo»; e isso é uma coisa que o homem contemporâneo já não conhece. Ou então tem de renunciar a toda a reflexão acerca da vida, o que, para muitos, é o suficiente; de contrário cai nessa estranha contradição, que consiste em pensar, sem conseguir nunca uma satisfação completa. No decorrer da História tal contradição assumiu a forma, ora de uma descrença total, ora de uma nova e total submissão à crença. Hoje, na maioria dos casos, ela traduz-se pela ideia de que não poderia existir uma verdadeira vida humana sem a participação do espírito, mas que esta também não poderia subsistir se essa participação se tomasse demasiado activa. Toda a nossa civilização assenta neste princípio. Toma muito a peito subvencionar os estabelecimentos de instrução e de pesquisa, mas tem o cuidado em que essas subvenções não sejam exageradas e mantém uma modéstia decente em relação às somas que despende nos seus prazeres, nos seus automóveis, e nos seus armamentos. Deixa em tudo o caminho livre ao homem capaz, velando, porém, para que essa capacidade seja rendosa. Mediante uma certa resistência, acaba por admitir todas as ideias, no entanto essa resistência aproveita automaticamente, mais tarde, à ideia contrária. Poderíamos ver nisto, da sua parte, uma certa fraqueza, uma monstruosa indolência; trata-se também, sem dúvida, de ura esforço deveras consciente paira fazer compreender ao espírito que este não é tudo. Bastava que se tomasse bem a sério qualquer uma das ideias que influenciam a nossa vida, de modo que não subsistisse absolutamente nada da ideia contrária, para que a nossa civilização deixasse de ser aquilo que é!
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
tenho de concordar! Abraço, WB
Dito por: whiteball no dia 21 de maio 2004, às 22h14Álvaro de Campos
Pessoa pôde demonstrar
que o que não existe existe
que também existe o que não há
e que até morre o que não existe
Um abraço...
Dito por: O parolo no dia 22 de maio 2004, às 01h07Adorei seu blogger. Tem-s textos maravilhosos e o visual eh muito lindo.
Beijos.