maio 18, 2004

Quando olho para mim não me percebo

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Álvaro de Campos


Publicado por dolphin.s em maio 18, 2004 09:56 AM
Comentários

Boa escolha :)

Dito por: Finúrias no dia 18 de maio 2004, às 10h45

Álvaro de Campos
...ressuscitou...

Nos telhados as cabeças
Nas cabeças a demência que os projectou
Janelas Paredes Muros – Estruturas
Exemplos de exclusividade, de solidão
Devido à vulnerabilidade
A protecção teve necessidade e protegeu-se!

Faço por entender o que não entendo
Porém, o que entendo nunca foi o que quis entender
Estranho, este mundo das ideias...
Poderá a ideia criar e não ser criada?
Risos... A ideia deixou de ser contínua
É um processo descontínuo que continua

Farei jus a este mundo fragmentado
Neste saltitar ininterrupto
Neste não ser nada
Por ser várias coisas ao mesmo tempo

Meus (teus) poetas fingem-se
Fingem-se todos da mesma maneira e modo
Auxiliam-se mutuamente – são um todo disfarçado
Procuram dar beleza – falseá-la
Não posso ser bom porque vos suportei
Ó, aturei-vos como algo… alternativa em reciprocidade

Estou farto de Tricô – de rendilhados eufemistas
De falsos sentimentos, de falsos sentires
De ser indirecto quando posso ser discreto

... puta que o pariu...

(texto escrito em 1997. faz parte do livro "Pode ser que vos caia uma chupeta do céu)

Dito por: Luís F. Simões no dia 18 de maio 2004, às 12h01

Até acho que figurava perfeitamente a seguir ao "post" que colocaste - se quiseres adicioná-lo, estás à vontade.

Dito por: Luís F. Simões no dia 18 de maio 2004, às 12h03

Intemporalidade

ao acordar
constato a miséria
do mundo
e dói-me a incapacidade
de não poder tomar o pequeno-almoço
no fundo do mar

(Quanto ao Álvaro de Campos: é o meu heterónimo preferido)

Dito por: O parolo no dia 18 de maio 2004, às 12h21

"Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu" brilhante, não é?

Dito por: margarete no dia 18 de maio 2004, às 13h33

o meu tb, parolo :)

Dito por: dolphin.s no dia 18 de maio 2004, às 14h58

a ver se não te peço uma ajudinha para colocar uma foto ;) Já foste ler a última do parolo? Porque esperas?!

Dito por: O parolo no dia 18 de maio 2004, às 15h35

não sei se percebi o que queres dizer..
queres ser mais explicito? :)

Dito por: dolphin.s no dia 18 de maio 2004, às 16h41

Álvaro de Campos tem este encanto: diz o que eu sinto, sem exitação...como se me comhecesse...melhor que eu! Abraço, WB

Dito por: whiteball no dia 18 de maio 2004, às 21h15