maio 17, 2004

A vida

Robert MusilA vida é um estado de dureza e infelicidade durante o qual não se deve pensar de mais no dia de amanhã, porque o dia de hoje já é suficientemente difícil. Como pode alguém não perceber que o mundo humano não é uma coisa flutuante, antes tende para uma condenação máxima, porque a menor irregularidade o faz correr o risco de se desmantelar completamente? Mais ainda: como pode um observador deixar de reconhecer que essa mistura de preocupações, de instintos, de ideais que é a vida (a vida, que não utiliza nunca as ideias senão para abusar delas para seu proveito, ou para as transformar em excitantes), actua sobre essas ideias para lhes dar forma e coerência, e que é dela que as ideias recebem o movimento e a sua limitação natural? É certo que é da uva que se extrai o vinho, mas é muito mais bela a vinha, com a sua terra incomestível e as suas filas de cepas, do que jamais será uma dorna de vinho!


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em maio 17, 2004 10:13 AM
Comentários

Não nos devemos esquecer: A vida é um bicho que nos come.

Dito por: O parolo no dia 17 de maio 2004, às 14h45

acho que somos é nós quem come a vida, tentando fazer dela algo que não é.

Dito por: dolphin.s no dia 17 de maio 2004, às 17h28

às vezes, d., tb é bom devorá-la!

;)

Dito por: margarete no dia 17 de maio 2004, às 18h58

Creio que se nós comessemos a vida não tinhamos a morte com saldo final. A vida, na verdadeira acepção da palavra, encerra tudo, inclusive a morte. A vida vive para além da "vida" que é morte. Creio que o "parolo" tem razão...
Isto, que habitamos e pensamos, não deixa de ser um mero cenário de vida em relação à VIDA que é bem capaz de ser um bicho medonho.

Dito por: Luís F. Simões no dia 17 de maio 2004, às 19h00

a vida e morte são as 2 faces da mesma moeda.
se procuras um sentido na vida, para além de viver, és devorado por ela.

tudo o que fazemos nada mais é do que ocupar o tempo que temos até morrer. o resto, depende de como cada um quer ocupar esse tempo, e o significado que lhe dá.

Dito por: dolphin.s no dia 17 de maio 2004, às 19h30

Uma das coisas que me angustia é oensar demais no dia de amanhã1 Chego a antecipar o sofrimento que ainda não tem razão de ser! Por isso muitas crises de pessimismo passam por mim e me afligem a alma. Abraço, WB

Dito por: whiteball no dia 17 de maio 2004, às 21h19

o dia de amanhã é só mais um dia. quando conseguirmos acreditar nisso, quando nos conseguirmos libertar da necessidade de dar um sentido a tudo em vez de aceitar as coisas tal como elas são, cristalinas, reais, e presentes apenas hoje, no momento, como só mais um passo que comemos no tempo que passamos aqui, quando conseguirmos isso, será como se um peso nos saisse de cima, e as angústias sobre o dia de amanhã, sobre o sentido da vida, deixarão de ter importância, ou até, de fazer sentido.

existem coisas que tornam este intervalo de tempo mais alegre, contente, ou, pelo menos satisfeito.
são essas coisas que tento descobrir e conquistar, não para dar sentido à vida, mas para a tornar mais colorida e mais densa.

Dito por: dolphin.s no dia 17 de maio 2004, às 21h28

A vida são 4 dias, dos quais 3 de chuva e um nublado!
Por isso devemos aproveitar cada momento da melhor maneira.

Dito por: naosei no dia 17 de maio 2004, às 22h34

A vida são 4 dias, dos quais 3 de chuva e um nublado!
Por isso devemos aproveitar cada momento o melhor possível.

Dito por: naosei no dia 17 de maio 2004, às 22h35

(Depois do que li deixo um poema...)

Canto Com CorPo

Hoje esse canto
Não me traz o brilho anunciado
Hoje os pássaros que silvam
Não me calam o silêncio...

Afasto-me
Nos segundos em que repouso
Num corpo inundado de insónias

Estranho à lucidez
Devoro o imaginário
Desço ao limite da imensidão

No vagar que se desmorona
Batem-me à porta dizendo-me:

Tinha um corpo
Que evocava instante a instante
A beleza incerta por desvendar

Tinha um corpo
Que se derretia
No enorme engano que é o teu desejo

Frenético
Tracei um caminho ocasional
No qual prossigo por dentro

Hoje
Pernoito comigo mesmo
Num contínuo alucinar murmurante

Hoje
Sempre que posso saio
Para ter o prazer de voltar

Porque hoje, tenho um corpo
Cuja forma é disforme
Por entre os nocturnos dispersos,
Tenho um corpo
Um precipício
Uma euforia imensurável
Um vocabulário por descodificar

Dito por: Luís F. Simões no dia 17 de maio 2004, às 23h12

Esqueci de dizer que esse texto faz parte do meu primeiro livro "Trespassa-se"...

Dito por: Luís F. Simões no dia 17 de maio 2004, às 23h14

" A vida é o espaço que fica entre dois grandes silêncios; o antes de nascer, e o depois de morrer..." Isabel Allende

Dito por: SM no dia 18 de maio 2004, às 23h55