maio 08, 2004

A PORTUGUESA

De criadores de cabras e de naus
a bisonhos fabricantes de badalos
para sinos de betume, caro Georges,

anda ver o meu país de gazeteiros,
entre o pau que vai e vem,
infaustos foliões, de costas para o mar.

Anda ver estes Maneis, dobrados de avidez,
os dedos apertados por volantes suicidas,
abolidos entre fados, manivelas, promoções.

À porrada que lhes dão chamam-lhe futuro,
temem mais os livros do que a morte de um irmão
e colocam a cabeça mais a jeito do carrasco.

Das Marias só te conto a mania do verniz,
os derrames de perfume no altar da pequenez,
a vida cambiada pelo crédito de gritos.

Anda, caro Georges, anda ver e depois diz-me
se o pior da alma humana
vem ou não à superfície, como lodo,

quando séculos de pez e abulia são bulidos
por correntes de paixões bonificadas,
no caseiro leva-e-traz de catilinas ambições,

de razões inoculadas pelo gosto de morrer
cada dia um poucochinho.




José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui

Publicado por jm em maio 8, 2004 12:45 AM
Comentários

É sempre bom termos pessoas que demonstrem com lucidez e arte o universo comezinho dos portugueses.

Dito por: Luís F. Simões no dia 9 de maio 2004, às 17h47