Em comparação com a administração de um país, individualmente, em tempo de guerra, cada homem, por si, como que fundava um Ministério da Normalidade, que impunha, essencialmente, repetições. Porque só as repetições acalmavam, só as repetições permitiam a cada indivíduo voltar a encontrar-se humano no dia seguinte. Repetições de actos ou de pequenos gestos, de palavras ou de frases banais — repetições até de actos não visíveis, não registáveis pelos outros, como imagens e memórias do cérebro, tudo isso permitia a cada um sobreviver no meio da confusão, resistir no meio do reino da desordem, no meio daquilo que Klober costumava designar como século da imprevisibilidade, século não apenas contrário mas inimigo da repetição. Este não é um século normal, costumava dizer Klober, mas os homens deste século continuam a ser o que sempre foram. E era esta, a mistura: Homens que repetiam os actos essenciais das gerações anteriores e que eram invadidos — e esta é uma utilização exacta do termo pois descreve o fluxo e a velocidade dos movimentos — eram invadidos, então, ao mesmo tempo, por fenómenos absolutamente novos.
Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser
Fenómenos absolutamente novos são mesmo um Mi(ni)stério da Normalidade.
Dito por: Anjo élico no dia 7 de maio 2004, às 01h00