Ser obrigado é ser explorado. Os felizes, os poderosos, aproveitam-se do momento em que estendeis a mão para lhe meterem um soldo, e do momento em que sois cobardes para vos tornarem escravos, e escravos da pior espécie, escravos de uma caridade, escravos forçados a amarem! Que infâmia! Que indelicadeza! Que surpresa para a nossa altivez! E está tudo acabado, aí estais condenados, perpétuamente, a achar bom aquele homem, bela aquela muulher, a ficar no segundo plano subalterno, a aprovar, a aplaudir, a admirar, a incensar, a prostar-vos, a pôr nas vossas rótulas o calo do ajoelhar, a açucarar as palavras, quando estais devorados pela cólera, quando mascais gritos de furor, e quando tendes em vós mais selvagem agitação e mais amarga espuma do que o oceano.
É assim que os ricos fazem prisioneiro o pobre.
Este visco da boa acção cometida para convosco suja-vos e enlameia-vos para sempre.
Uma esmola é irremediável. Reconhecimento é paralisia. O beneficio tem uma aderência viscosa e repugnante que vos tira a liberdade de movimentos. Os odiosos seres opolentos e gordos cuja piedade se abateu sobre vós bem o sabem. Está dito. Sois a sua coisa. Compraram-vos. Por quanto? Por um osso, que tiraram ao seu cão para vos oferecerem. Lançaram-vos este osso à cabeça. É o mesmo. Roestes o osso ou não? Também tivestes uma parte do nicho. Por isso agradecei. Agradecei para sempre. Adorai os vossos senhores. Genuflexão indefinida. O beneficio implica um subentendido de inferioridade aceite por vós. Exigem que vos sintais pobres diabos e que os sintais a eles deuses. A vossa diminuição aumenta-os. A vossa curvatura levanta-os. Têm no som da voz uma doce ponta de impertinência. Os seus acontecimentos de familia, casamentos, baptismos, a fêmea prenhe, os filhos que dá à luz, tudo isso é convosco. Nasce-lhes um lobozinho, bem, tereis de compor um soneto. Sois poetas para serdes chatos. Se não é para fazer cair o céu! Um pouco mais e far-vos-iam usar o seu calçado velho.
De resto se estais doentes, os senhores mandam-vos o médico. Não o seu. Nas ocasiões, informam-se. Não pertencendo à mesma espécia que vós e estando do seu lado o inacessível, são afáveis. O seu alcantilamento torna-os inabordáveis. Sabem que o nivelamento é impossível. À força do desdém, são bem educados. À mesa fazem-vos um pequeno sinal de cabeça. Algumas vezes sabem a ortografia do vosso nome. Só vos fazem sentir que são vossos protectores ao caminharem simplesmente sobre tudo quanto tendes de susceptível e delicado.Tratam-vos com bondade!
Victor Hugo, in O Homem que Ri
para o Simak ;)