abril 20, 2004

A moral do nosso tempo

A moral do nosso tempo, digam lá o que disserem, é uma moral de produção. Justificam-se bem cinco falências mais ou menos fraudulentas desde que a quinta seja seguida de uma época de prosperidade e de benefícios. O êxito pode fazer com que se esqueça tudo. Quando se atingiu uma situação na qual se podem consentir subvenções e comprar obras de arte, do mesmo modo se consegue a indulgência do Estado. Neste tipo de contralto, existem cláusulas não expressas: quando alguém dá dinheiro em benefício da igreja, das obras ou dos partidos, bastar-lhe-á gastar um décimo, quando muito, do que deveria despender se resolvesse provar a sua boa vontade favorecendo as belas-artes. Além disso, há limites impostos ao êxito: não se pode obter o que quer que seja de qualquer jeito; certos princípios relacionados com a Coroa, a Nobreza e a Sociedade exercem sobre «o homem novo» uma espécie de travão. Por outro lado, na sua qualidade ser suprapessoal, o Estado adopta francamente o princípio de que se pode pilhar, massacrar e enganar se daí advier poder, glória e civilização.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em abril 20, 2004 11:17 AM
Comentários

Conheci Robert Musil através do vosso "blog", e gostei.

No caso deste texto complemento assim:

Antigamente se alguém caía no chão os outros prestavam-se a auxiliar de imediato. Hoje se cairmos no chão ninguém se presta ao auxílio. Sabem porquê? Porque nós, os de hoje, caídos estamos.

Dito por: Luis F. Simões no dia 21 de abril 2004, às 01h03

época "pouca", como disse o Bonassi, essa em que a egrégora do mercado dá o tom.

Dito por: Lídia no dia 21 de abril 2004, às 15h01