abril 15, 2004

Vida privada

Clementina e Léon eram vítimas do preconceito segundo o qual dependiam um do outro quanto às suas paixões, aos seus caracteres, aos seus destinos e às suas acções. Na realidade, quase toda a existência é feita naturalmente, não de acções, mas sim de discursos de que assimilamos o ponto de vista, de opiniões e de contra-opiniões correspondentes numa palavra da acumulação impessoal de tudo quanto sabemos ou ouvimos. O destino desses dois esposos dependia quase inteiramente de uma estratificação tenaz, confusa e desordenada dos pensamentos, os quais tinham origem não nas suas opiniões pessoais, mas na opinião pública, e se modificaram ao mesmo tempo que esta sem que eles próprios pudessem defender-se disso. Comparada) a esta espécie de dependência, a sua dependência individual recíproca era uma coisa insignificante, um saldo absurdamente desprezado. Enquanto se persuadiam um ao outro de que tinham uma vida privada, e punham reciprocamente em causa os respectivos caracteres e vontades, a dificuldade sem esperança de tal conflito residia por inteiro na sua irrealidade, dissimulada por eles mesmos sob todas as contrariedades possíveis.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em abril 15, 2004 10:41 AM
Comentários

às vezes, queria aplicar o meu carácter de ditadora e obrigar toda a gente a conseguir atingir esta cena

arrogante?
quero lá saber.

Dito por: margarete no dia 15 de abril 2004, às 15h11

eheheheheh

;)

Dito por: dolphin.s no dia 15 de abril 2004, às 17h18

Inconclusivo

Já distante
Nas conversas de família permanece
Por vezes repara num ou noutro pormenor
Dentro de um todo que lhe é comum...
Sufoca angustiado
Próximo aos que exangues restam

Dito por: Luís F. Simões no dia 15 de abril 2004, às 21h58