Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse - de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num tempo que não foi esse ou numa emoção que falta - tudo isso, no meu passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção! Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso nocturno do meu passeio à beira-mar.
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio, incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu eterno passeio nocturno à beira-mar!
Bernardo Soares, in Livro do Desassossego
talvez seja a sensibilidade extrema de sentir o absoluto
talvez seja a ânsia de pensar o absoluto
talvez seja o nascer-se condenado a sentir e pensar em «modo absoluto»,
talvez seja tudo isso, ou parte disso,
que revolve as marés e as enluta nesse obscuro e "eterno passeio nocturno à beira-mar"
talvez seja por tudo isso, ou parte disso, que a única resposta possível é:
"Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste."
Há lugares onde a palavra "VOLTAR" deve ser escrita na nossa cabeça em letras bem grandes!
Há lugares onde a paz das palavras (sejam elas de quem forem) nos fazem não o esquecer...acabei de gravar VOLTAR AQUI na minha mente :)
Parabéns.
Sempre que posso saio
Para ter o prazer de voltar.
Nota: Qt. àquela situação, de facto consegui resolvê-la (pelo menos para já)
Entretanto tentei te enviar dois mails: um a esclarecer o que esclareci e outro era para colocar um apelo ao voto pela nigeriana (Amina) que se presta a ser abatida: está no site da amnistia internacional - porém, ambos foram devolvidos pelo "another planet@"
Tens a caixa cheia?
Um Abraço
Dito por: Luís F. Simões no dia 19 de abril 2004, às 18h53estranho!
não, não tenho a caixa cheia. mas a netcabo gosta de pregar partidas, volta e meia.
confirma se estás mesmo a enviar para o mail correcto - aquele que está indicado aí ao lado :)
Gostava de escrever um elogio original. Mas não estou nada inspirado. Por isso vou ser apenas sincero: parabéns.
cardosog
Obrigada :)
Dito por: dolphin.s no dia 4 de maio 2004, às 16h49