abril 14, 2004

Amanhã

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção -isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.
Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.


Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

Publicado por dolphin.s em abril 14, 2004 10:58 PM
Comentários

"(...) Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão."

há quanto tempo eu não lia algo que me fizesse desejar esta esperança renovada

enfim

enfim

(não liguem a esta...)

Dito por: margarete no dia 15 de abril 2004, às 15h13

:)******

Dito por: dolphin.s no dia 15 de abril 2004, às 17h39