Quem não ficaria embaraçado se de repente acontecesse aquilo que desejou durante toda a vida? Por exemplo, se o reino de Deus se abatesse subitamente sobre os católicos, e o Estado do futuro sobre os socialistas? Mas talvez isso não prove nada; nós habituámo-nos a reivindicar e não podemos ficar de um momento para o outro em estado de realizar; pode ser que muito gente ache isso natural. Prosseguirei pois com as minhas perguntas: não há dúvida de que, para um músico, o essencial é a música e, para um pintor, a pintura; é provável que, para um especialista do betão, o essencial sejam as construções em betão. Acha que, para esse, o bom Deus será um técnico do betão armado e que os dois outros preferem um mundo pintado ou tocado em trompa? Com certeza julga esta pergunta absurda, mas o caso é que, muito a sério, seríamos obrigados a reivindicar coisas absurdas! E, sobretudo, não vá imaginar — prosseguiu ele com gravidade, voltando-se para ela — que cada um prefere o que é dificilmente realizável e despreza o que se pode realmente obter. Não, o que quero dizer é isto: que a realidade guarda em si um desejo absurdo de irrealidade!
Ulrich voltou-se e riu. — Você, minha cara prima, meteu-se numa coisa extremamente perigosa. Os homens sentem-se sempre infinitamente felizes quando os deixam na incapacidade de realizar as suas ideias!
— E que faria você — inquiriu Diotima, irritada — se lhe dessem por um dia o governo do mundo?
— Com certeza só me restaria abolir a realidade!
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades