Lá fora, os carros continuam a rosnar. Homens e mulheres caminham de cabeça baixa, sem ver que debaixo dos seus pés existe um passeio construído com raciocínio e técnica. Que o homem que colocou aquelas pedras tinha uma família e que enquanto batia com o seu martelo de calceteiro e soltava nuvens esparsas de tabaco barato e pó branco, também ele próprio não tomava consciência dos materiais, ocupado em pensar na noite anterior em que o sexo lhe amolecera precocemente, na vagina da mulher. Não sendo isso a primeira vez e, por isso mesmo, se estava a tornar coisa preocupante; e que essa pedra tinha vindo de longe, de uma pedreira no Norte, situada no meio de um vale, onde um dia se tinham passeado homens a cheirar a bicho e antes deles bichos a cheirar a si próprios, ou, ocasionalmente, ao sangue ou às vísceras dos animais engolidos.
Por baixo das pedras talhadas, existe areia, que veio de um ribeiro que já não corre e por baixo dessa areia, encontra-se terra. Uma terra escura e sufocada pelo peso das coisas que carrega, mas, ainda assim, terra. E, por baixo de si, magma. E do magma não se passa, porque, ou se caminha para uma coisa transcendente, ou se morre tornado em chamas. E as chamas são luz e a luz sendo tanto, não é nada. Sobretudo, quando surge de um encontro, entre duas pessoas, numa casa perdida, de uma freguesia afastada de uma ilha no meio de um mar.
Possidónio Cachapa, in Viagem ao Coração dos Pássaros
Publicado por dolphin.s em abril 12, 2004 11:04 AMe tudo é nada, quando numa freguesia de uma ilha no meio do mar se sabe da vida em risco de um ente querido
perdem-se todas as dúvidas, resta a certeza de se querer estar perto e agarrar a vida
passa-se por cima das calçadas, pisa-se a pedra e nem se dá conta da chegada ao destino
neste momento, fosse o mar uma calçada
(tem nada a ver com o post, tudo o que possa ler neste momento só me poderá lembrar a jasmim que está longe do pai, hospitalizado por um avc)
Dito por: margarete no dia 12 de abril 2004, às 14h08os homens e as mulheres continuam a caminhar sem saber de outros homens e outras mulheres.
(talvez tenha a ver com o post sim, Margarete, - não que isso importe! - "a leitura é autobiográfica")
INTROSPECÇÃO
Numa saudação impura
De aversão juvenil rendida
Interrogo-me:
O que é o que deixou de ser?
(E o pêndulo oscila)
Fustiga-me um vento irresistível
Neste pássaro que voa,
Que cometeu já um erro,
Preso no seu pânico
Vítima ele mesmo do seu movimento,
Da sua deslocação, em esquecimento
Na longa estrada
Que conduz estas belas asas
Não havia saída no regressar
Não havia regressar
Havia sido tudo apenas um instante de fraqueza
E eu caminho, tu caminhas, eles caminham