Embora não seja católico
oiço atentamente quando os sinos
na torre de tijolos amarelos
da nova igreja deles
tocam deitando abaixo as folhas
tocam sobre a geada
e pela morte das flores
tocam espantando os melros
rumo ao sul, o céu
por eles escurecido, tocam
anunciando o novo filho de
Mr e Mrs Krantz que
de bochechas tão grandes
mal pode abrir os olhos, e tocam
tirando do seu poleiro o papagaio
ciumento do menino
tocam pelo domingo de manhã
pela velhice que tirando
dá. Que toquem
que apenas toquem! sobre o quadro
a óleo do jovem sacerdote
anunciando na parede da igreja
a novena de Santo António da
semana passada, toquem
pelo jovem coxo vestido de negro
de rosto magro e chapéu de
coco, correndo para a
missa das II (os cachos
de uvas ainda suspensos da
vinha ao longo do
vizinho Concordia Hall
como dentes cariados
na boca de um velho) Toquem
pelos olhos e toquem pelas
mãos e toquem
pelos filhos do meu amigo
que já não os pode ouvir
mas sorri
e em voz baixa fala
das decisões da
sua filha e das propostas
e das traições dos
amigos do seu marido. Ó sinos
toquem por tocar!
o princípio e o fim de
tocar! Toquem, toquem
toquem, toquem!
sinos católicos!
William Carlos Williams, in antologia breve, trad. José Agostinho Baptista, ed. Assírio & Alvim