Desde a mais tenra juventude, naqueles tempos em que ela começa a tomar consciência de si própria e cujos vestígios mais tarde se recordam comovidamente, ficara-lhe a lembrança de toda a espécie de imaginações que lhe eram caras, entre estas a ideia de «viver hipoteticamente». Estas duas palavras continuavam a evocar agora a coragem e a ignorância voluntária da vida, os tempos em que cada passo representa uma aventura, privada do apoio da experiência, o desejo de grandeza nas relações e esse sopro de revocabilidade que experimenta um jovem hesitante quando entra na vida. Ulrich pensava que não havia realmente nada aqui a aproveitar. O sentimento apaixonante de ser eleito fosse para o que fosse, eis a única coisa certa e bela que se reflecte no olhar daquele que avalia pela primeira vez o mundo. Se este é senhor das suas emoções, nada encontra a que possa dizer sim sem reserva; busca a bem amada possível, mas ignora qual ela é; tem capacidade de matar, sem estar seguro de que o deve fazer. O desejo de evoluir, próprio da sua natureza, impede-o de acreditar no facto realizado, mas tudo quanto vem a conhecer apresenta-se como se fosse já irrevogável. Pressente que esta ordem não é tão estável como parece; nenhum objecto, nenhuma pessoa, nenhum princípio é sólido, tudo está dependente de uma metamorfose invisível, mas nunca interrompida; há mais futuro no instável do que no estável e o presente não passa de uma hipótese que ainda não foi ultrapassada. Que poderia ele fazer de melhor do que conservar a sua liberdade em relação ao mundo, como um sábio que se mantém livre em relação aos factos que poderiam levá-lo a acreditar prematuramente em si? Por isso hesita em ser seja o que for; um carácter, um modo de vida, definido, uma profissão, não passam de representações sob as quais avulta já o esqueleto que será tudo quanto lhe resta no fim. Busca compreender-se por outros meios; com aquele apetite de que é dotado para tudo quanto pode vir a enriquecê-lo interiormente (mesmo para além dos limites da moral e do pensamento), experimenta a impressão de ser um passo, livre de seguir em todas as direcções, mas que vai sempre de um ponto de equilíbrio até ao seguinte, e sempre em frente.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
É uma das maravilhas da literatura, este Musil!
Dito por: ângela no dia 7 de abril 2004, às 10h39Penso que só se pode traçar o passado no seu futuro, olhando para trás. Todo o passo em frente, e porque sendo o homem o centro cada passo é em frente, é hipotético, indefinido, imprevisível. A liberdade perde-se quando perdemos a capacidade de espanto, e de colocar qualquer hipótese. Muitas vezes crescer é deixar secar o barro com que nos fomos moldando sempre...e depois, ficamos presos, sem hipóteses. :)
Dito por: vanus no dia 7 de abril 2004, às 11h44mas há tb quem viva sabendo de antemão todos os passos, seguindo uma linha recta sem arriscar desvios nem olhar para o lado.
e nem sempre os passos são em frente. umas vezes consciente, outras inconscientemente, damos passos para trás.
eu acho que para crescer, nunca se pode deixar secar o barro.... tornarmo-nos uma escultura acabada, é interromper o processo de crescimento, é negarmos tudo o que possa vir depois, é negarmo-nos a acrescentar mais barro...
Dito por: dolphin.s no dia 7 de abril 2004, às 13h53De barro em barro
Enche Dolphin.s o papo
Luís F. Simões
É sempre bom visitar um espaço de cultura...
Dito por: Luís F. Simões no dia 8 de abril 2004, às 00h03