abril 06, 2004

A punição domestica o homem

Friedrich NietzscheDurante milénios, os malfeitores submetidos à punição tiveram dos seus crimes a mesma impressão de que fala Espinosa: «inesperadamente qualquer coisa correu mal», e não «eu não devia ter feito isto»... Submetiam-se à punição como quem aceita uma doença, uma calamidade ou a morte, com o mesmo fatalismo corajoso e destituído de revolta com que, por exemplo, ainda hoje os Russos dispõem da vida, no que se superiorizam a nós, Ocidentais. Naqueles tempos, se existia crítica do acto, era uma crítica exercida por parte da inteligência: não haverá dúvidas de que o verdadeiro efeito da punição tem que ser procurado na agudização da inteligência, no prolongamento da memória, na vontade de agir futuramente com mais cautela, maior secretismo e desconfiança, na compreensão de que há muitas coisas para as quais se é definitivamente demasiado fraco, ou seja, numa espécie de correcção da avaliação que o indivíduo faz das suas capacidades. No geral, quer no homem quer nos animais, o que se alcança com a punição é o aumento do medo, o desenvolvimento da esperteza, o domínio sobre os desejos... Ora, desse modo a punição domestica o homem, mas não o torna «melhor»... Mais razões haveria para afirmar o contrário («aprende-se com os erros», diz o povo; na medida em que se aprende, fica-se também pior..., mas felizmente muitas vezes também se fica mais estúpido).


Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral

Publicado por dolphin.s em abril 6, 2004 10:29 AM
Comentários

É necessário ter uma grande dose de coragem para comentar Nietzsche - coragem ou estupidez. Como tenho muito das duas não comento... mas deixo um poema!

Não muito longe daqui
Afastamo-nos
Calando o que dissemos
No interior da memória

Luís F. Simões

Dito por: Luís F. Simões no dia 6 de abril 2004, às 15h54

Ler Nietzsche deixaria de fazer sentido se não pudesse falar dele, discutir e partilhar ;)

Dito por: dolphin.s no dia 6 de abril 2004, às 15h59

O problema é que a punição leva a uma "má fé", ou seja, passamos a fazer não aquilo que queremos, mas aquilo que somos obrigados, por domesticação, a fazer. Deixamos de agir e passamos a reagir...e no meio, anula-se a vontade.

Dito por: vanus no dia 6 de abril 2004, às 22h50

e domesticam-se os instintos ;)

Dito por: dolphin.s no dia 7 de abril 2004, às 10h10

não poderia estar mais feliz de ver a Genealogia da Moral relembrada. Um livro relativamente pequeno, imensamente poderoso; são três ensaios soberbos, super inspirados, de ler com incontida emoção! destaco dos três ensaios o último, exactamente o que muitos cristãos e religiosos deveriam ler, não sem antes passarem os olhos com a devida atenção pelo conceito dos vocábulos ASCETA e ASCETISMO e suas derivações, ANACORETA, privação...
Nietzsche merece sem dúvida um novo mundo, melhor que o que CRISTO teve! Só lamento não ler todos os dias mais um pouco de Nietzsche, ou ver mais vezes algures por ai como vi aqui no SILENCIO.

Dito por: Alexnietzsche no dia 7 de abril 2004, às 15h32

vivemos num mundo criado pelo homem... e a verdade é que todos somos responsáveis pelos estado a que isto chegou (como diria Salgueiro Maia :D).
Criticar não deve nunca ser sinónimo de desresponsabilização.
E para olhar para fora, temos primeiro que ter a capacidade de olhar para dentro ;)

a um bom católico, antes de lhe impingir a Genealogia, dava-lhe com o Anticristo e/ou o Crepúsculo dos Idolos ;)

Dito por: dolphin.s no dia 7 de abril 2004, às 15h38

Do Crepúsculo dos idolos, destaco o ensaio OS MELHORADORES DA HUMANIDADE, e do Anticristo só lamento nao ser maior, se Nietzsche tivesse na altura um computadorzito para ajudar certamente teria escrito um livro maior, ou ter-seia perdido a jogar uns jogos on-line, como eu insconscientemente faço...
continue
tire lá uma frase dos Melhoradores da Humanidade.

Dito por: alexandre no dia 10 de abril 2004, às 02h08

não tenho por hábito responder a desafios, mas se te quiseres dar ao trabalho de espreitar os "Capítulos" aí ao lado ou fazer uma busca aos arquivos..... ;)

se Nietzsche tivesse tido um computador, provavelmente nunca chegaria a ter sido Nietzsche....

Dito por: dolphin.s no dia 13 de abril 2004, às 12h29