Durante milénios, os malfeitores submetidos à punição tiveram dos seus crimes a mesma impressão de que fala Espinosa: «inesperadamente qualquer coisa correu mal», e não «eu não devia ter feito isto»... Submetiam-se à punição como quem aceita uma doença, uma calamidade ou a morte, com o mesmo fatalismo corajoso e destituído de revolta com que, por exemplo, ainda hoje os Russos dispõem da vida, no que se superiorizam a nós, Ocidentais. Naqueles tempos, se existia crítica do acto, era uma crítica exercida por parte da inteligência: não haverá dúvidas de que o verdadeiro efeito da punição tem que ser procurado na agudização da inteligência, no prolongamento da memória, na vontade de agir futuramente com mais cautela, maior secretismo e desconfiança, na compreensão de que há muitas coisas para as quais se é definitivamente demasiado fraco, ou seja, numa espécie de correcção da avaliação que o indivíduo faz das suas capacidades. No geral, quer no homem quer nos animais, o que se alcança com a punição é o aumento do medo, o desenvolvimento da esperteza, o domínio sobre os desejos... Ora, desse modo a punição domestica o homem, mas não o torna «melhor»... Mais razões haveria para afirmar o contrário («aprende-se com os erros», diz o povo; na medida em que se aprende, fica-se também pior..., mas felizmente muitas vezes também se fica mais estúpido).
Nietzsche, in Para a Genealogia da Moral
É necessário ter uma grande dose de coragem para comentar Nietzsche - coragem ou estupidez. Como tenho muito das duas não comento... mas deixo um poema!
Não muito longe daqui
Afastamo-nos
Calando o que dissemos
No interior da memória
Luís F. Simões
Dito por: Luís F. Simões no dia 6 de abril 2004, às 15h54Ler Nietzsche deixaria de fazer sentido se não pudesse falar dele, discutir e partilhar ;)
Dito por: dolphin.s no dia 6 de abril 2004, às 15h59O problema é que a punição leva a uma "má fé", ou seja, passamos a fazer não aquilo que queremos, mas aquilo que somos obrigados, por domesticação, a fazer. Deixamos de agir e passamos a reagir...e no meio, anula-se a vontade.
Dito por: vanus no dia 6 de abril 2004, às 22h50e domesticam-se os instintos ;)
Dito por: dolphin.s no dia 7 de abril 2004, às 10h10não poderia estar mais feliz de ver a Genealogia da Moral relembrada. Um livro relativamente pequeno, imensamente poderoso; são três ensaios soberbos, super inspirados, de ler com incontida emoção! destaco dos três ensaios o último, exactamente o que muitos cristãos e religiosos deveriam ler, não sem antes passarem os olhos com a devida atenção pelo conceito dos vocábulos ASCETA e ASCETISMO e suas derivações, ANACORETA, privação...
Nietzsche merece sem dúvida um novo mundo, melhor que o que CRISTO teve! Só lamento não ler todos os dias mais um pouco de Nietzsche, ou ver mais vezes algures por ai como vi aqui no SILENCIO.
vivemos num mundo criado pelo homem... e a verdade é que todos somos responsáveis pelos estado a que isto chegou (como diria Salgueiro Maia :D).
Criticar não deve nunca ser sinónimo de desresponsabilização.
E para olhar para fora, temos primeiro que ter a capacidade de olhar para dentro ;)
a um bom católico, antes de lhe impingir a Genealogia, dava-lhe com o Anticristo e/ou o Crepúsculo dos Idolos ;)
Dito por: dolphin.s no dia 7 de abril 2004, às 15h38Do Crepúsculo dos idolos, destaco o ensaio OS MELHORADORES DA HUMANIDADE, e do Anticristo só lamento nao ser maior, se Nietzsche tivesse na altura um computadorzito para ajudar certamente teria escrito um livro maior, ou ter-seia perdido a jogar uns jogos on-line, como eu insconscientemente faço...
continue
tire lá uma frase dos Melhoradores da Humanidade.
não tenho por hábito responder a desafios, mas se te quiseres dar ao trabalho de espreitar os "Capítulos" aí ao lado ou fazer uma busca aos arquivos..... ;)
se Nietzsche tivesse tido um computador, provavelmente nunca chegaria a ter sido Nietzsche....
Dito por: dolphin.s no dia 13 de abril 2004, às 12h29