abril 05, 2004

Um mundo onde reina a verdade

Lars GustafssonNo planeta número 3 do Sistema 13, em Aldebaran, existe uma civilização que se relaciona directamente com a realidade, sem símbolos intermediários.
A ideia de que, por exemplo, uma figura desenhada num papel representa alguma coisa mais do que ela própria é totalmente alheia aos miriápodes possuidores de uma força extraordinária que constituem o estádio civilizacional mais elevado do planeta.
A sua força invulgar pouco lhes adianta. Uma vez que o único símbolo de uma coisa que eles conhecem é a própria coisa, têm de transportar constantemente uma enorme quantidade de objectos. Neste planeta a expressão «uma retórica vigorosa» tem um significado real.
Por exemplo, quando se quer dizer «uma pedra aquecida pelo sol», só há uma maneira. É pôr uma pedra aquecida ao sol na mão, ou melhor, na pata daquele com quem se está a falar.
Se se quiser dizer «uma pedra gigantesca no alto de uma montanha», só há uma maneira de proferir essa frase. É carregar com uma pedra gigantesca para o cimo de uma montanha.
Produzir um poema, nestas circunstâncias, é uma prova de força que permanece, em toda a sua heróica evidência, por várias gerações.
A maior parte dos sonetos que esta civilização produziu parecem-se de certo modo com Stonehenge: formidáveis grupos de pedras alinhadas por heróicos antepassados, arquejando e gemendo, com as veias salientes, segundo um esquema ancestral.
Nesta civilização a mentira é, evidentemente, uma total impossibilidade. Se se quer dizer «amo-te» a alguém, só há uma maneira, que é fazê-lo. Se se quer dizer «não te amo», também só há uma maneira, que consiste em evitar fazê-lo. Se se for capaz.
Num mundo em que o símbolo é sempre coincidente com a própria coisa e esta não pode ser substituída por pequenos sons ridículos ou por fieiras de sinaizinhos bizarros desenhados num papel, sinais esses que nada têm a ver seja com o que for para além de uma frágil e transitória convenção, é claro que a verdade e o sentido, a mentira e o absurdo, serão coincidentes.
O único substituto da mentira que existe num mundo como este é, evidentemente, falar de forma tão incompreensível, tão absurda, que ninguém entenda.
A conversação normal, a conversa trivial, neste planeta, consiste em os seus habitantes tirarem de umas bolsas de couro que costumam trazer consigo uma quantidade de objectos muito pequenos, contas de vidro, pedrinhas de diversas cores, pauzinhos muito bem polidos — e trocarem-nos animadamente entre si.
O preço da verdade é elevado.
De todas as civilizações superiores da região dos velhos sóis, no centro da Via Láctea, não há nenhuma que viva tão isolada como esta.
A astronomia, naturalmente, é impossível. Não podemos falar de galáxias se for necessário transportá-las de um lado para o outro para nos referirmos a elas. Aliás, o próprio conceito de «planeta» é impensável.
Estes seres vivem numa planície avermelhada, delimitada por altas montanhas.
E nem para essa planície que, teoricamente, é o mesmo que «o mundo», eles têm um conceito.

(Caderno azul IV: 4)

Lars Gustafsson, in A Morte de um Apicultor

Publicado por dolphin.s em abril 5, 2004 10:12 AM
Comentários

serão as palavras, então, a linguagem inevitável da mentira?
porque, sendo sinais sonoros/gráficos convencionados da realidade, se distanciam dela? porque as palavras não são a realidade mas a sua representação...

e é curioso que o surgir da palavra (linguagem verbal) marca historicamente a evolução da humanidade, do homem pré-histórico ao actual. traduz-se essa evolução numa maior capacidade de usar a linguagem verbal, i.e., a mentira?

Dito por: margem no dia 5 de abril 2004, às 11h49

De alguém que às vezes pensa que pensa...
"Um mundo onde reina a verdade" só pode ser mentira.
O Homem parou nas formas primitivas da comunicação. Vivemos condicionados pelos primeiros colonizadores da comunicação. Se nos tivéssemos sobreposto a eles acredito que hoje a nossa forma de comunicação rondasse a telepatia…
É dramático, mas o único veículo que permite expressar isto é a própria escrita!

Luís F. Simões

Dito por: Luís Simoes no dia 5 de abril 2004, às 12h31

txiiiiiiiii

isto dava pano para mangas!

primeiroS, muito fixe este excerto d.

segundoS, era engraçado 'colá-lo' a chomsky e a fromkin (dois estudiosos da linguagem), o chomsky é mais conhecido, a fromkin nem tanto mas é uma 'senhora'

terceiroS, o conceito de linguagem universal... apetecia-me discuti-lo aquizinho e agorazinho não fosse a preguiça do teclar e a impaciência da espera de respostas em diferido

quartoS, deixo-vos um excerto do V Ferreira:
"de manhã à noite um só homem normal diz milhares de palavras, são precisos muitos séculos para que o seu simples sentido se altere. (...) só o nosso tempo verdadeiramente se interrogou sobre o significado exacto de uma simples palavra. pq eu digo 'isto é uma mesa' e não sei o q é uma 'mesa'(...)"
(agora muuitos blá blá acerca das representações podia transcrever tudo mas tou com pressa! ah! e desculpem o abreviar um autor!
)"não há portanto um mundo real traduzido em palavras, mas um mundo de palavras sobreposto a esse real."

...e blá blá blá

beijoooooooooooos

8)

Dito por: margarete no dia 5 de abril 2004, às 13h20

as palavras são a linguagem da mentira, mas também da verdade, um entrave a exprimir-mos o que sentimos, ou a maneira de exprimir-mos o que sentimos.... dizem amor e ódio. são representações tão reais como a realidade, e passíveis de interpretações e visões tão diferentes de indivíduo para indivíduo como qq outra representação do real, ou o real em si mesmo.
Para uns, uma pedra é uma pedra, para outros uma pedra é um poema.

Dito por: dolphin.s no dia 5 de abril 2004, às 13h51

também gostei deste excerto, dolphin, e como a Margarete diz dava pano para mangas!

e não tenho muitos conhecimentos em que me apoiar...
em todo o caso, quando usei a expressão "linguagem da mentira" pensava na palavra como objecto através do qual se comunica. por exemplo, pensar "pedra", não como pedra (referente concreto da palavra) ou como poema (referente subjectivo da palavra), mas como p-e-d-r-a (conjunto de sinais gráficos ou sonoros, se a palavra for dita oralmente, que, em si, nada têm a ver com as realidades a que se poderá referir, mas são mera representação convencionada que serve à comunicação entre uma comunidade linguística). é nesse sentido que a palavra mente a realidade ela mesma. dizer "pedra" não substitui a pedra.

esta questão da representação materializada da realidade sempre me recorda aquele quadro do Magritte "Ceci n'est pas une pomme"

(acho que me estou a atrapalhar... este é um assunto demasiado vasto, complexo,...)

Dito por: margem no dia 5 de abril 2004, às 14h21

"dizer "pedra" não substitui a pedra"

é isso mesmo! :))

dizer pedra, sem nunca ter visto uma pedra, sem ter tocado numa, brincado, atira-la à água, é brincar com sons vazios de significado. a linguagem serve como comunicação, mas não substitui a realidade.

é o mesmo para quem lê milhares de livros mas se resguarda numa redoma e deixa de viver. tudo o que lê não passa de conhecimento decorado, sem vida. como alguém que decora datas e factos para uma exame. nunca será mais do que isso, nunca poderá sentir ou compreender o que lê se se limitar a olhar para as palavras e decorá-las e se esquecer que aquilo que faz com que elas tenham sentido é a vida.

Dito por: dolphin.s no dia 5 de abril 2004, às 14h27

não estás nada atrapalahr-te.

e eu queria mesmo estar nesta conversa, mas tenho de ir

só deixo mais esta no ar

sei duma senhora, tem havido várisa pessoas a tentar, que tem tentado provar uma relação lágica entre a formação sonora de uma palavra e a representação da mesma... é quase a procura do elixir da vida, devido à variedade de palavrtas tão diferentes entre línguas para representar várias ideias/objectso por exemplo:

palavras onde se encontram relações fonol´pgicas: mamã- mom- e por a´´i fora noutrsa línguas... fazem a relação entre o movimento de mamar e produção do som /m/... blá blá e ent~~ao querem provar a relação (esytarei a ser clara?)

depois a negação:
papá- dad/father - pére... blá bl
á

mas isto é engraçado tem alguma piada e é entusiasmente... na maior parte das vezes saímos deste estudo com a sensação de que estamos menos esclarecidos e com novas e mais dúvidas!!!!!!


beijuuuuuuuuuuuus... sabem o que quero dizer com isto? que vos envio beijooooooooos... sabem a representação?!

;}

*

Dito por: margarete no dia 5 de abril 2004, às 14h33

er.. o atrapalhar.te era para a margezita

8)

Dito por: margarete no dia 5 de abril 2004, às 14h34

não é elixir da vida é elixir da juventude

8/

pá... tantos erros de teclar! desculpem... depresaa... mais devagar!

Dito por: margarete no dia 5 de abril 2004, às 14h35

E assim se vai passando o tempo...

Luís F. Simões

Dito por: Luis Simoes no dia 5 de abril 2004, às 15h27

Para entreter:

O que é o que deixou de ser?

LFS

Dito por: Luís Simões no dia 5 de abril 2004, às 15h31

Ao ler este trecho de Lars Gustafsson volto a pensar que a palavra "realidade" nunca designará algo em si mesmo. A linguagem é uma forma de vida, é um jogo que supõe regras inventadas por uma determinada comunidade. Até mesmo a própria coisa (uma pedra, por exemplo) já supoe um uso, uma função numa comunidade de comunicação. E mesmo assim, tal uso deve variar de acordo com a mesma comunidade. Falar em essência de alguma coisa não tem mais sentido. Têm sentido os "usos pragmáticos" a respeito da "coisa" e da sua função.
Abraços

Dito por: Alexandre Bueno no dia 12 de abril 2004, às 18h36