abril 02, 2004

Não parto de uma ideia mas talvez chegue a uma ideia

Não parto de uma ideia mas talvez chegue a uma ideia
ao real à verdade terra a céu aberto
afinal hoje sei-o houve coisas de permeio
e a própria pedra cisma num fantasma
e se duvido do mistério deste mundo vário
sei que o pior decorre no silêncio
onde despido e ridículo sozinho no século
nem sempre sou iníquo mas somente vácuo
reles sorrio é olho de uma certa altura
para a usura que me assegura a sepultura



Ruy belo, do poema nem sequer não, in Obra Poética de..., vol. 2

Publicado por jm em abril 2, 2004 10:23 AM
Comentários

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na muche!

Dito por: margarete no dia 2 de abril 2004, às 12h53

Acto Soliloquial

Não sabia
Que um dia
Iria compreender
A vida assim:
Rosto virado para o chão
Um mosaico de paralelepípedos
Um caminho de formigas...

Percorri cidades
Em ambos os extremos
Deparei-me sempre com a recusa

Saturei-me
Dos desejos comuns
Do amor e do ódio
Da tristeza e da alegria
Da esperança,
Do idealizar um futuro prometedor

Cansei-me
Cansei-me de beber
E de comer
De sair e entrar
De cagar e mijar
De tomar banho e vestir-me,
De ser diferente e continuar igual

Que podia eu fazer?
Não divisava a consciência como ruptura
Naqueles primeiros quinze anos


Se pudesse ir para a rua
E negar todos os olhares
E assim evitar o meu rosto (no rosto de outros)
Se pudesse num lapso de memória
Furtar-me a todo um passado
No qual me idealizei aqui e ali e bem
Tudo era mais fácil – tão fácil

Porém,
Acreditei num grande amor
Na eternidade
E que poderia beneficiar economicamente
Os que me haviam prendado com a existência

Ignorava que mais tarde
Veria meus ideais devastados
E que entraria num processo de ruptura
Chegando mesmo a cuspir na cara de meu pai

Meus sonhos
Perdiam a dimensão de outrora
De um lado para o outro
Velozes
Na auto-estrada do tempo

Escancarei meu grito
Acreditei que assim poderia fazer-me ouvir
Desconhecia que o mesmo em mim ecoava
E que todos os Deuses a que apelava
Permaneciam, afinal, inalteráveis no meu silêncio

A cada atitude
Desprendia-me dos valores

Afastava-me
De mim mesmo
Evitando consciencializar todo um cenário
Do qual era legítimo criador

Já não era necessário
Acreditar
Num voo diferente
Era necessário
Acreditar
Que longe, muito longe
Era tudo diferente

Ignorei habilmente
As janelas que se ofereciam
Todos os venenos e
Outras inúmeras formas

Denunciei a angústia
Deixei de a confiar à solidão
... desconhecia descer mais um degrau

Isento de qualquer curiosidade
Tornei-me
Num acto contínuo involuntário
Numa dúvida
Penetrando nos abismos da memória

Sedutor
O vento não deixava de resvalar
Por entre as folhas
Difundindo-se numa voz
Que me reconduzia ao passado

Navegava, oscilando, num mar de paixões compulsivas
Fazia o curso de rua
Em pleno Estado de São Paulo, no Brasil
Oito anos bastaram, 75 a 82,
Para que adquirisse todas as manhas dos guris
Das imensas favelas

(Que interessa – diziam eles,
Se tens que te prostituir
Se deves aqui e ali
Se comes a tua mãe
E detestas outra cor que não a tua)

À noite estávamos lá batidos
“Madame Satã”
Um dos maravilhosos antros de São Paulo
(Um abraço, Humberto!)

No primeiro andar,
Onde actuavam as bandas de “Covers”,
Encontrava-se uma cama do século XIX
Disponível para quem quisesse...
Várias foram as vezes em que os olhos
Daquele belo gato se fixaram nos meus

E o “Big Dealer Roger”
Sempre simpático no dividir dos seus “copos etílicos”
Trabalhava bastante
Rodava por cerca de dez espaços nocturnos
Até chegar a casa mãe, à “Estação”
Dois deles, com alguma relevância para mim,
“Espaço Z” (as fufas) e “Fagadi” (tudo um pouco)
Cocktail: Overdose

Anunciavam a homenagem ao mito
Ian Kevin Curtis
No dia 25-05-91 (Sábado)
Pedindo desculpas aos fãs
Pela não realização no dia 18;
Idealização e arte a cargo do Roger
Coordenação e criação por Lilian Brito
Estavam volvidos 11 anos após a sua morte

A performance recaía em Minéia e na Renata
Uma com a dança do ventre
Outra com o errante postulado

Minhas Deusas!
A organização era da Irmandade Nocturna
Estava para além de toda a harmonia...

Exausto
Assentava o pé como forma de apoio
Na parede relaxava as costas
(Os relevos estão salientes
Estes tipos são uns filhos da puta
querem-me lixar)

Na fragmentação
Bebia mais e mais
Dançava num rodopio virtual
A música! Adoro a música
Adoro o silêncio incompleto

Arrastando-me
Deixando partes de mim
Por todo o desconhecido
Cheguei ao Bar…
Reparo no grupo de nipónicos
Reparo nos seus olhos...

Belas são as flores de ópio
Anestesiadas
Desvendam seus seios
Por entre roupas “chic’s”
Adquiridas numa viagem a Nova Iorque
Realizada há quinze dias

Os nipónicos
São parte da moda em São Paulo
São o “Jet Set Underground”
Dos Jardins e da Paulista

Por entre gestos amargurados
Fazia hiper-ventilação

Deitei a cabeça sobre o tampo da mesa
Senti as lágrimas escorrerem
Abandonavam, também elas, o conforto de um corpo

Noites e noites ressurgiam
Com elas descia
Promovendo minhas fraquezas

Desprezava sempre
As confissões
Nas portas do costume
Para depois
Numa atitude inocente
Oferecer-me rendido
Ao resumo da meiguice:
À maconha e ao álcool
Hoje sinto que toda a minha força em recomeçar
É apenas um mero reflexo
De uma realidade
Que já não reside no que faço, no que sou

Nem um lugar
Nem uma razão sólida
Tudo se dispersou e esbateu
Fazendo-me embater com a vulgaridade

E finjo
Finjo ser uma expressão nova
Porém, já não encontro motivo para nos admirarmos
Percebes?
A obra vingou-se em si mesmo Magoando-se

E da verdade
Ah, da verdade
Não restam referências
Que sirvam de reconhecimento para a mesma

Circunstancial um sorriso
Exteriorizava-se
Criando-me falsas expectativas
Tornava-me o menor momento
Excessivamente longo
E em tom de ironia
Apelava-me para parar à minha maneira
...
Luís, então! Estás ausente?
Ah, olá Humberto – está animado o espaço
Já vou agitar mais um pouco
Vê lá!

Aquelas palavras finais
Deflagravam em minha imaginação
Fazendo florescer o desconforto

Procurei um espelho
Tentava rever-me, reconhecer-me

Velado por um corpo embusteiro
Contemplava o cenário

Fatigado, pela mesma coisa, desembarcava
Conservando os precedentes
Repousava agora a vertigem...

Na celeridade do palco
O mistério subdividia-se, abatendo-me

Quem me dera poder ouvir o sussurro das árvores
E verter mais uma lágrima
Para repor a harmonia casual do mundo, deste mundo
… Exilar-me
Porque de nada serve o anonimato plural

Antevejo no rumor latente
A vergonha tão comum
Dos criadores sem rosto

Sabes, todo o meu amor
Dispersou-se nas mãos que adormeceram
Naquela noite
Enquanto acenava às estrelas
E contava-as em tom surdo
Em primitivismo ancestral

Nem Mozart nem Beethoven
Nem Pessoa nem Freud nem Nietzsche
Nem Picasso Nem Dali
Souberam qual o melhor ritmo
Adequado à crença esgotada do século XX

Por vezes
Alguém morre
Alguém casa
Alguém sorri

Aqui, consolo, revolto, o rosto desfeito

Posso
Sentir o degradar
Dos dias presentes
Na ausência de respostas,
Criam-se perguntas do nada
E dão-se respostas do nada
Perpetua-se a mentira

Para ela sou ele
Para ele sou ela
Para mim quem sou?

Penso nos vários utensílios,
Nos vários adereços,
Não sei se deva pintar os lábios
E sombrear as pálpebras

Não sei se alguma destas atitudes
Poderá modificar-me
Elevar-me deste marasmo,
Desta costumeira,
Em que olho para um copo ainda à meio
Como se observasse a minha inocência

Ser absoluto
E despedir-me
Do espaço
Entre
A partida e a chegada
Despedir-me
Da profunda mortalidade

Era sinal
Que me havia enjoado de toda a plenitude
Da imparável superficialidade dos dias e das noites
Das horas, das semanas,
Dos meses que resultam em anos
Nos quais me revejo
Como parte de uma realidade cada vez mais imprecisa

Renunciar ao voo secreto, à encenação
Embater em mim mesmo
Fragmentar braços e pernas
Porque tudo,
Já alguém disse,
É sempre pouco, tão pouco

Luís F. Simões/Rascunho

Dito por: Luís F. Simões no dia 4 de abril 2004, às 13h22

"Ruy belo, do poema nem sequer não"

gostei muito. é o poema ou um excerto do poema?

Dito por: margem no dia 5 de abril 2004, às 11h51

margem, é um pequeno excerto do poema.

Dito por: jm no dia 5 de abril 2004, às 21h59