Quer se fique imóvel ou se prefira caminhar, o essencial não é aquilo que temos na mossa frente, aquilo que vemos, ouvimos, queremos ou dominamos. Na nossa frente está um horizonte, um semicírculo; mas há uma corda que une as duas extremidades desse semicírculo e o plano dessa corda atravessa o mundo ao meio. Em nós, o rosto e as mãos apontam pana fora desse plano; as sensações e as aspirações vêm até nós através dele; e ninguém duvida de que aquilo que se faz nesse espaço seja sempre razoável ou pelo menos apaixonado; isso significa que as circunstâncias exteriores possuem uma maneira de condicionar as nossas acções que todos podem compreender; e mesmo quando, inspirados pela paixão, fazemos qualquer coisa de incompreensível, esse incompreensível possui ainda assim, ao cabo e ao resto, a sua característica. Mas, por muito compreensíveis e completas que nos pareçam todas as coisas, nem por isso deixa de subsistir em nós o sentimento de que nelas apenas existe uma semiplenitude, uma semicompreensão. O equilíbrio não é completo e o homem avança para não vacilar, como um dançarino sobre a corda-bamba. Como ele avança através da vida e deixa atrás de si o que foi vivido, isto e o que está por viver formam uma espécie de divisória e o caminhar do homem acaba por se assemelhar ao do caruncho na madeira: pode andar às voltas dentro dela, mas deixa sempre atrás de si um espaço vazio. É graças a esse sentimento terrível de um espaço cego e amputado atrás de todo o espaço cheio, a essa metade que permanentemente nos falta, mesmo quando alguma coisa forma um todo, que acabamos por nos dar conta daquilo a que se chama alma.
De resto, nós sentimo-la, pensamo-la, adivinhamo-la sempre sob a forma dos sucedâneos mais diversos e cada um de acordo com o seu temperamento. Na juventude ela corresponde a um sentimento muito nítido de incerteza em tudo aquilo que fazemos: seria aquilo que deveríamos fazer? Na velhice é o espanto de não termos feito mais coisas entre aquilo que nos propúnhamos fazer. Na meia-idade é o sentimento de sermos um tipo formidável, um tipo fantástico, ou simplesmente «um tipo», mesmo que nem sempre encontremos naquilo que fazemos só coisas justificáveis; ou então achamos que o mundo não é aquilo que deveria ser, de modo que, ao cabo e ao resto, tudo quanto não conseguimos fazer resume-se ainda num compromisso satisfatório; sem contarmos que muita gente imagina ainda, acima de todas as coisas, a existência de um Deus que guarda no bolso o bocado que faltava.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
Musil é sem duvida um desconhecido para a maioria dos portuguese, aliás, qualquer que ponha o português a pensar é um desconhecido. Evidentemente vamos dizer que não é assim, com inumeros exemplos e nomes. Não serão esses a excepção ? se não o fossem, não teriamos necessidade de os ir buscar para contrariar o discurso. E mesmo assim, desses poucos, ha ainda uma parte que está bem documentada e normalmente muito aparecida aqui e acolá que por muitos documentos que tenham gravados na memória e que conseguem debitar e bailar em volta deles, para pouco mais lhes serviram, porque deles não tiraram mais do que fazem questão em mostrar. e o que resta ?...
Dito por: José Pedro Jess de Lemos no dia 30 de março 2004, às 18h28restam as caixas de comentários.
Dito por: josephK no dia 30 de março 2004, às 19h33Intereesante tal busca, olhando para dentro, para a parte que falta, mas que não acha qualquer crença que encaixa.
Dito por: Adolfo no dia 30 de março 2004, às 19h37