A nossa concepção do mundo que nos rodeia, tal como a que temos de nós próprios, muda em cada dia que passa. Vivemos numa época de transição. Ela irá prolongar-se se não enfrentarmos, mais corajosamente do que até agora fizemos, as nossas tarefas essenciais, até ao fim do planeta. Contudo, quando se é relegado para a obscuridade, não podemos cantar com medo como fazem as crianças. Fingir que sabemos como deve ser o nosso comportamento aqui, é nada mais nada menos do que medo: rugidos que fazem tremer os alicerces do mundo, são apenas medo! Além disso galopamos, estou plenamente convencido disso! Estamos ainda muito longe dos objectivos, não nos aproximamos deles, nem sequer os avistamos, havemos de enganar-nos ainda muitas vezes no caminho, teremos muitas vezes ainda que mudar de cavalos; mas qualquer dia, depois de amanhã ou daqui a dois mil anos, o horizonte começará a deslizar e precipitar-se-á sobre nós, mugindo! O crepúsculo cairá.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
O dia, com gradientes de luz; a própria manhã com suas raras estreias absolutas, seus reinícios, suas retomas, seus termos; a vida, com o despertar dela, o apogeu e o declínio, mesmo este incluindo "(...) Esta transição do momento em que achamos as coisas do mundo envelhecidas para aquele em que as consideramos belas" -(1)-, eterno retorno, eterno porvir. Trabalhos de Sísifo, tarefas de máquinas, nós biónicos (em gerações que se sucedem) as reparando quando se cansam. "havemos de enganar-nos ainda muitas vezes no caminho" -(2)- . Ó grito mudo que entontece! "A morte parece menos terrível quando se está cansado" -(3)-.
Arte, estética, paragens para recuperar forças.Silenciousamente.
(1) Musil, "A beleza de todas as coisas"
(2) Id., "A concepção do mundo"
(3) S. de Beauvoir
Gostei do texto :)
Dito por: Alex no dia 25 de março 2004, às 14h48