No fundo, poucos existem que ainda saibam, no meio da sua vida, a forma como puderam chegar a ser aquilo que hoje são, às suas distracções, à sua concepção do mundo, à sua mulher, ao seu carácter, à sua profissão e aos seus êxitos; mas pressentem que pouco ou nada podem alterar isso. É até legítimo afirmar-se que eles foram enganados, pois nunca conseguimos descobrir uma razão suficiente para que as coisas se tenham tomado aquilo que são; teria sido perfeitamente possível encaminharem-se de outra forma; os acontecimentos só raras vezes foram a emanação dos homens, eles dependeram quase sempre de todas as espécies de circunstâncias, da disposição, da vida e da morte de outros homens, e apenas lhes caíram em cima em determinado instante. Durante a juventude, a vida deparava-se-lhes ainda como uma manhã inesgotável, repleta de possibilidades e de vazio, mas eis que ao meio-dia já algo surge diante de mós, algo que tem o direito de ser, a partir daí, a nossa vida, e causa também muita surpresa que no dia em que um homem está de súbito ali sentado, com quem nos correspondemos durante vinte anos sem o compreendermos nos surja tão diferente daquilo que imaginamos. Mas ainda o mais estranho é que a maioria dos homens não se aperceba disso; adoptam o homem que se aproximou deles, cuja vida se aclimatou nele, os acontecimentos da sua vida afiguram-se-lhes a partir daí expressão das suas qualidades, o seu destino é o seu mérito ou a sua pouca sorte. Sucedeu-lhes o mesmo que às moscas com a fita mata-moscas: algo se colou a eles, apanhando aqui um pêlo, entravando-lhes além os movimentos, qualquer coisa os manietou, até que ficaram sepultados sob uma espessa cobertura que só muito remotamente corresponde à sua forma primitiva. A partir daí só muito obscuramente é que pensam nessa juventude em que neles existia uma força de resistência: essa outra força que sacode e sopra, que nunca está quieta e desperta uma avalancha de tentativas de fuga sem qualquer espécie de objectivos; o espírito trocista da juventude, o seu repúdio da ordem estabelecida, a sua disponibilidade perante qualquer espécie de heroísmo, tanto para o sacrifício como para o crime, a sua ardente gravidade e a sua inconstância, tudo isso não passa de tentativas de fuga.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
Como se incita? Como se louva sem aborrecer?
Meu dilecto weblog, a melodia do teu silêncio afasta todas as vãs filosofias...
Human Applause
Isn't my heart holy, more full of life's beauty,
since I fell in love? Why did you like me more
when I was prouder and wilder, more full
of words, yet emptier?
Well, the crowd likes whatever sells in the
marketplace; and no one but a slave
appreciates violent men. Only those who
are themselves godlike believe in the gods.
- - - Hölderlin
"If you're going to hang with the gods, just say no to capitalism and the military."
- - - http://home.att.net/~holderlin/notestopoems.htm#applausesungod
Felicito o(s) autor(es) deste site pela densidade do mesmo.
Numa época de ligeireza e superficialidade, sabe bem encontrar espaços como este na web.
Também comecei um blog há algum tempo. Se tiverem tempo de visitar e deixar os vossos comentários, agradeço.
www.ordemnascente.blogspot.com
Bem hajam e...força!
Mariana Inverno
Felicito o(s) autor(es) deste site pela densidade do mesmo.
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Bem hajam e...força!
Mariana Inverno
Pode sempre ser diferente... (?)
Beijo
Graça :)
Dito por: Graça Carpes no dia 23 de março 2004, às 05h28Discordo.
A inquietação não é uma tentativa de fuga, é a força que impulsiona a humanidade.
concordo... mas a tentativa de fuga aqui, nunca é concretizada, limita-se a ser uma inquietação, uma insatisfação, sem a transformar na fuga.
Dito por: dolphin.s no dia 23 de março 2004, às 10h08é estranho realmente pensar como chegamos ao que somos em adultos. não sei se todas as juventudes são repletas de sonhos e/ou vazios. não sei se muitas coisas não poderiam ter sido decididas de outra forma por nós mesmos, i.e., se tudo mas tudo depende das circunstâncias. não sei se as inquietações só pertencem a uma idade. não sei se essa descolagem do que somos em adultos é possível (e desejável) (e necessária) (e pertinente) (e sensata)
Dito por: margem no dia 23 de março 2004, às 10h23As inquietações não pertecem a uma idade.... ou então a minha idade das inquietações ainda não acabou ;)
Mas uma coisa sei: a descolagem daquilo que somos é sempre possível. e reconstruirmo-nos, e começar do zero, e voltar a ter que descobrir quem somos afinal.... mesmo que essa verdade dure pouco tempo. O que importa é sentirmos que somos fieis à nossa verdade, a verdade de hoje.
Amanhã logo se vê ;)
A inquietação é um sinal de alarme, um estimulo para nos mexermos. Nem sempre estamos disponíveis para o ouvir ou para o fazer... infelizmente....
o desconforto instala-se....
Não somos fieis a nós mesmos. Não procuramos a nossa autenticidade. Esquecemo-nos dos sonhos e das inquietações.
Acomodamo-nos e adormecemos...
não sei se falamos de inquietações diferentes.
o desconforto é grande sim.
mas depois, pensando na miséria (texto acima) ou na guerra, torna-se impertinente, sinal de egoísmo, culpa instalada. (o que é uma 'inquietação' face a quem não tem pão para comer ou vê a morte bombardeada todos os dias?)
e outras coisas, outros pensamentos,...
Dito por: margem no dia 23 de março 2004, às 11h33mas as 2 coisas são incompatíveis? acho que não...
pelo contrário, quanto mais consciência tenho do mundo e da sociedade, maior a inquietação que sinto em relação a mim.
leva-me a mudar em relação a mim mesma e em relação ao mundo.
e, em mim, essa interligação é cada vez maior.
entendo. pensar o mundo também se torna pessoal, também nos questiona, também nos pode (e deve certamente) levar a mudar o nosso estar connosco, com a vida, com o mundo-ele-mesmo.
e esse diálogo começa de fora para dentro (o reposicionamento interior poderá reconduzi-lo fora, interligar-se)
receio a indiferença, minha.
Dito por: margem no dia 23 de março 2004, às 12h05não acredito nessa indiferença tua ;p
não a tenho visto por aqui... bem pelo contrário ;))
Dito por: dolphin.s no dia 23 de março 2004, às 12h22=/
vim só dizer olá.
olá
=|
Dito por: margarete no dia 23 de março 2004, às 12h55olá Margarete!
que passa?
tudo nada
8)