março 16, 2004

Um homem que pensa

Robert MusilInfelizmente não há nada mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor, a quem perguntaram como conseguia ter tantas ideias novas, respondeu: «pensando constantemente nelas». Com efeito, bem podemos dizer que as ideias inesperadas só nos vêm porque já estávamos à espera delas. São, em grande parte, o merecido fruto de um carácter, de certas inclinações estáveis, de uma ambição tenaz, de uma incansável actividade. Como é que uma tal perseverança pode deixar de ser enfadonha? Vista por outro prisma, a solução de um problema intelectual é mais ou menos semelhante ao que acontece quando um cão pretende passar por uma abertura estreita levando um pau na boca; volta a cabeça para a direita e para a esquerda até que o pau passa de lado; nós fazemos precisamente o mesmo, só com a diferença que não tentamos ao acaso, antes sabemos mais ou menos, por uma questão de hábito, como havemos de manobrar. E muito embora seja natural que uma cabeça bem recheada tenha mais habilidade e experiência parai se mover do que uma cabeça vazia, nem por isso ela fica menos surpreendida quando consegue deslizar através da abertura; a coisa passa-se com rapidez e notamos nitidamente dentro de nós um certo espanto ao verificarmos que os pensamentos, em lugar de esperarem pelo seu autor, se fizeram sozinhos. A este sentimento de leve espanto, muita gente hoje em, dia deu o nome de «intuição», depois lhe haverem chamado «inspiração», e julgam ver aí algo de superpessoal, quando Se trata simplesmente de qualquer coisa de impessoal, ou seja a afinidade e a homogeneidade das próprias coisas que se encontram dentro de um cérebro.

Quanto melhor é esse cérebro menos visíveis são os seus actos. Por isso é que o acto de pensar, enquanto se prolonga, é um estado lamentável, uma espécie de cólica de todas as circunvoluções do cérebro; mas quando termina já perdeu a forma do pensar sob a qual viveu, para assumir a da coisa pensada; e essa forma é, lamentamos dizê-lo, impessoal, porque o pensamento entretanto voltou-se, para o exterior destinando-se à comunicação. Quando um homem pensa, torna-se por assim dizer impossível isolar o momento em que ele passa do pessoal para o impessoal e é exactamente por isso que os pensadores causam tantas dores de cabeça aos escritores que estes preferem evitar tal espécie de personagens.


Robert Musil, in O Homem sem Qualidades

Publicado por dolphin.s em março 16, 2004 10:26 AM
Comentários

"Quanto melhor é esse cérebro menos visíveis são os seus actos"

O homem que pensa, a dificuldade da descrição do acto de pensar, por pessoal que é.

O texto é fixe, embora, ainda assim, um pouco previsivel, talvez, na sua conclusão. A forma como chega a essa conclusão é que torna o texto bonito em si.

Dito por: Paulo Silva no dia 16 de março 2004, às 11h06

ehehehhe

sabia que este texto te ia chamar aqui ;)

Dito por: dolphin.s no dia 16 de março 2004, às 11h10

"Vista por outro prisma, a solução de um problema intelectual é mais ou menos semelhante ao que acontece quando um cão pretende passar por uma abertura estreita levando um pau na boca; volta a cabeça para a direita e para a esquerda até que o pau passa de lado; nós fazemos precisamente o mesmo, só com a diferença que não tentamos ao acaso, antes sabemos mais ou menos, por uma questão de hábito, como havemos de manobrar.

pois... se o Homem soubesse 'fazer isto quando o pau é 'Emocional'... nesses casos... acho que se aplica a lei do acaso

(enfim)

=|

Dito por: margarete no dia 16 de março 2004, às 23h06

o "emocional" é o nosso lado mais inocente, mais puro, talvez, por isso o menos preparado para "passar todas as estreitezas" e também o que mais se ressente com isso.

Dito por: margem no dia 17 de março 2004, às 00h14

penso que penso e volto a pensar
se tu pensas dessa maneira
sabes que podes sempre errar

Dito por: homemsemnome no dia 17 de março 2004, às 09h34

hoje, olho a estreiteza do caminho e 'tou sem forças para tentar sequer.

Dito por: margem no dia 17 de março 2004, às 09h39

mas também acho que o nosso lado emocional pode ser o mais forte, o que nos leva mais longe, e o mais fiel a nós.

se seguissemos mais vezes as nossas emoções, tenho a certeza que viveriamos melhor com nós mesmos, do que viver tentando seguir o caminho da razão, analisando tudo, pensando tudo antes de qualquer passo e/ou qualquer palavra.

somos os nossos piores censores, os primeiros a sufocar-nos, e, por isso, os principais causadores das nossas maiores frustrações.

Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 10h10

Não há pensamento sem emoção. Por mais racional que este seja. Há, pelo menos, a emoção de o querermos pensar. E que não há-de ser tão pouca quanto isso, principalmente quando o nosso pensamento é bastante frutífero.

Dito por: Paulo Silva no dia 17 de março 2004, às 11h15

discordo de ti, Paulo.

pode haver pensamento sem qq emoção - uma análise racional de uma situação ou problema pode excluir totalmente a emoção.
não acho que nos envolvamos emocionalmente em tudo.

Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 11h19

A análise racional pode excluir a emoção, mas a motivação para a análise racional é baseada na emoção, na emoção de querer fazer uma análise racional.

Dito por: Paulo Silva no dia 17 de março 2004, às 11h22

E o ser uma análise racional depende sempre de uma decisão? De um querer?

em algumas situações, a hipótese de se fazer uma análise emocional nem se põe - é simplesmente racional.

Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 11h28

"E o ser uma análise racional depende sempre de uma decisão? De um querer?"

Sim, sem dúvida, a decisão pode ser racional, mas há uma emoção por trás disso, a emoção da satisfação de se estar a tomar uma decisão racional de fazer uma análise racional.

"em algumas situações, a hipótese de se fazer uma análise emocional nem se põe - é simplesmente racional."

Sim, mas a motivação é sempre de ordem emocional. Por exemplo, ao estarmos a ter esta conversa, por mais racionais que estejamos a tentar ser, há a emoção de querermos responder um ao outro, que não é uma coisa racional - é emocional.

Emocional não quer dizer que não se pense racionalemente, há as boas e as más emoções. A emoção que leva a um pensamento racional não tem mal nenhum desde que esta não se envolva no processo. E isso muitas vezes não é transparente, muitas vezes pensamos que estamos a tomar uma decisao racional, mas, mais tarde, depois das consequências, olhamos para trás, e verficamos que enumeramos os argumentos racionais que a nossa emoção nos levou a escolher.

Quantas vezes isso nos acontece ? A mim, receio dizer, na esmagadora maioria das vezes.

Dito por: Paulo Silva no dia 17 de março 2004, às 12h10

esta conversa tem tanta emoção como aquilo que nos estamos a divertir ehehehhe

"Sim, sem dúvida, a decisão pode ser racional, mas há uma emoção por trás disso, a emoção da satisfação de se estar a tomar uma decisão racional de fazer uma análise racional."

pá, decidir se faço uma query por uma table, ou por outra, não me dá satisfação nenhuma. é apenas uma análise do mais prático e/ou o que me dará o resultado mais correcto. puramente racional sem qq emoção envolvida
:P

Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 12h24

"penso que penso e volto a pensar
se tu pensas dessa maneira
sabes que podes sempre errar"

8) RIMOU

Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 13h20

er...

ia avacalhar... desisti =§

não sei se foi a emoção ou a razão o meu motor de acção

=&

Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 13h24

e não percebeste que a conversa já tinha avacalhado??? ehehhehehee

Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 14h49

pelo menos, o teu riso tá meio torto...

"ehehhehehee"

comecei a imaginar a entoação...

eh ehh e heh ee

ou

e heh h eh he hee(leia-se este último hi)

(possibilidades infinitas nos dão este 'e' e 'h')


8)

Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 14h54

a minha gargalhada tem sempre um ligeiro toque de insanidade :PPPP

Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 14h57

eh!

não pode, gargalhada é gargalhada, nos dias de hoje é uma insanidade, é isso a saude da cena

'desinsana'

Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 15h00

sentir e pensar. pensar e sentir. deixam-me tonta, à deriva.
não se pensa com emoção nem se sente com o pensamento. não são ocorrências simultâneas. uma emoção pode levar a um pensamento, ou seja, antecedê-lo. um pensamento pode levar a uma emoção. quando sinto, não penso. quando penso, mesmo quando penso o que sinto, esse sentir já é passado, ainda que muito recente. sentir. pensar. o caos é confundir os sentimentos com pensamentos ou vice-versa. há palavras para o pensamento, não para o sentimento. posso tentare traduzir em palavras o sentimento, mas estas são mera representação. o sentimento-ele-mesmo é indizível. tonta.
hoje, tentei não escutar a emoção, tentei racionalmente ultrapassar a estreiteza do caminho. melhor fora não o ter feito. falhei ridiculamente. a emoção não quer saber da razão para nada.

Dito por: margem no dia 17 de março 2004, às 16h50

será que, se fosse sempre racional, a expressão "péssimo dia hoje!" desapareceria?

Dito por: margem no dia 17 de março 2004, às 17h13

"será que, se fosse sempre racional, a expressão "péssimo dia hoje!" desapareceria?"

nah! talvez o contrário... e ao contrário... e nem nisso acredito!

=[

Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 18h16

já conversei com muitas pessoas espantadas e, por vezes, estilhaçadas com os berros da emoção. afinal não controlavam o (seu) mundo, nunca o controlaram. levantam-se e, aos poucos, tentam recuperar, sem fazerem barulho, o trono perdido. vão andando.

conversei com outras que levaram banhos de razão quando ainda juravam que o mundo era eminentemente sensorial. desiludiram-se tanto que me parece que ainda não acreditam no tamanho do luto que têm pela frente.

acho que já não dá para separar as águas.
somos tudo; até normais.

Dito por: josephK no dia 18 de março 2004, às 04h40

=o

Dito por: margarete no dia 18 de março 2004, às 13h20