Infelizmente não há nada mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor, a quem perguntaram como conseguia ter tantas ideias novas, respondeu: «pensando constantemente nelas». Com efeito, bem podemos dizer que as ideias inesperadas só nos vêm porque já estávamos à espera delas. São, em grande parte, o merecido fruto de um carácter, de certas inclinações estáveis, de uma ambição tenaz, de uma incansável actividade. Como é que uma tal perseverança pode deixar de ser enfadonha? Vista por outro prisma, a solução de um problema intelectual é mais ou menos semelhante ao que acontece quando um cão pretende passar por uma abertura estreita levando um pau na boca; volta a cabeça para a direita e para a esquerda até que o pau passa de lado; nós fazemos precisamente o mesmo, só com a diferença que não tentamos ao acaso, antes sabemos mais ou menos, por uma questão de hábito, como havemos de manobrar. E muito embora seja natural que uma cabeça bem recheada tenha mais habilidade e experiência parai se mover do que uma cabeça vazia, nem por isso ela fica menos surpreendida quando consegue deslizar através da abertura; a coisa passa-se com rapidez e notamos nitidamente dentro de nós um certo espanto ao verificarmos que os pensamentos, em lugar de esperarem pelo seu autor, se fizeram sozinhos. A este sentimento de leve espanto, muita gente hoje em, dia deu o nome de «intuição», depois lhe haverem chamado «inspiração», e julgam ver aí algo de superpessoal, quando Se trata simplesmente de qualquer coisa de impessoal, ou seja a afinidade e a homogeneidade das próprias coisas que se encontram dentro de um cérebro.
Quanto melhor é esse cérebro menos visíveis são os seus actos. Por isso é que o acto de pensar, enquanto se prolonga, é um estado lamentável, uma espécie de cólica de todas as circunvoluções do cérebro; mas quando termina já perdeu a forma do pensar sob a qual viveu, para assumir a da coisa pensada; e essa forma é, lamentamos dizê-lo, impessoal, porque o pensamento entretanto voltou-se, para o exterior destinando-se à comunicação. Quando um homem pensa, torna-se por assim dizer impossível isolar o momento em que ele passa do pessoal para o impessoal e é exactamente por isso que os pensadores causam tantas dores de cabeça aos escritores que estes preferem evitar tal espécie de personagens.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
"Quanto melhor é esse cérebro menos visíveis são os seus actos"
O homem que pensa, a dificuldade da descrição do acto de pensar, por pessoal que é.
O texto é fixe, embora, ainda assim, um pouco previsivel, talvez, na sua conclusão. A forma como chega a essa conclusão é que torna o texto bonito em si.
Dito por: Paulo Silva no dia 16 de março 2004, às 11h06ehehehhe
sabia que este texto te ia chamar aqui ;)
Dito por: dolphin.s no dia 16 de março 2004, às 11h10"Vista por outro prisma, a solução de um problema intelectual é mais ou menos semelhante ao que acontece quando um cão pretende passar por uma abertura estreita levando um pau na boca; volta a cabeça para a direita e para a esquerda até que o pau passa de lado; nós fazemos precisamente o mesmo, só com a diferença que não tentamos ao acaso, antes sabemos mais ou menos, por uma questão de hábito, como havemos de manobrar.
pois... se o Homem soubesse 'fazer isto quando o pau é 'Emocional'... nesses casos... acho que se aplica a lei do acaso
(enfim)
=|
Dito por: margarete no dia 16 de março 2004, às 23h06o "emocional" é o nosso lado mais inocente, mais puro, talvez, por isso o menos preparado para "passar todas as estreitezas" e também o que mais se ressente com isso.
Dito por: margem no dia 17 de março 2004, às 00h14penso que penso e volto a pensar
se tu pensas dessa maneira
sabes que podes sempre errar
hoje, olho a estreiteza do caminho e 'tou sem forças para tentar sequer.
Dito por: margem no dia 17 de março 2004, às 09h39mas também acho que o nosso lado emocional pode ser o mais forte, o que nos leva mais longe, e o mais fiel a nós.
se seguissemos mais vezes as nossas emoções, tenho a certeza que viveriamos melhor com nós mesmos, do que viver tentando seguir o caminho da razão, analisando tudo, pensando tudo antes de qualquer passo e/ou qualquer palavra.
somos os nossos piores censores, os primeiros a sufocar-nos, e, por isso, os principais causadores das nossas maiores frustrações.
Não há pensamento sem emoção. Por mais racional que este seja. Há, pelo menos, a emoção de o querermos pensar. E que não há-de ser tão pouca quanto isso, principalmente quando o nosso pensamento é bastante frutífero.
Dito por: Paulo Silva no dia 17 de março 2004, às 11h15discordo de ti, Paulo.
pode haver pensamento sem qq emoção - uma análise racional de uma situação ou problema pode excluir totalmente a emoção.
não acho que nos envolvamos emocionalmente em tudo.
A análise racional pode excluir a emoção, mas a motivação para a análise racional é baseada na emoção, na emoção de querer fazer uma análise racional.
Dito por: Paulo Silva no dia 17 de março 2004, às 11h22E o ser uma análise racional depende sempre de uma decisão? De um querer?
em algumas situações, a hipótese de se fazer uma análise emocional nem se põe - é simplesmente racional.
Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 11h28"E o ser uma análise racional depende sempre de uma decisão? De um querer?"
Sim, sem dúvida, a decisão pode ser racional, mas há uma emoção por trás disso, a emoção da satisfação de se estar a tomar uma decisão racional de fazer uma análise racional.
"em algumas situações, a hipótese de se fazer uma análise emocional nem se põe - é simplesmente racional."
Sim, mas a motivação é sempre de ordem emocional. Por exemplo, ao estarmos a ter esta conversa, por mais racionais que estejamos a tentar ser, há a emoção de querermos responder um ao outro, que não é uma coisa racional - é emocional.
Emocional não quer dizer que não se pense racionalemente, há as boas e as más emoções. A emoção que leva a um pensamento racional não tem mal nenhum desde que esta não se envolva no processo. E isso muitas vezes não é transparente, muitas vezes pensamos que estamos a tomar uma decisao racional, mas, mais tarde, depois das consequências, olhamos para trás, e verficamos que enumeramos os argumentos racionais que a nossa emoção nos levou a escolher.
Quantas vezes isso nos acontece ? A mim, receio dizer, na esmagadora maioria das vezes.
Dito por: Paulo Silva no dia 17 de março 2004, às 12h10esta conversa tem tanta emoção como aquilo que nos estamos a divertir ehehehhe
"Sim, sem dúvida, a decisão pode ser racional, mas há uma emoção por trás disso, a emoção da satisfação de se estar a tomar uma decisão racional de fazer uma análise racional."
pá, decidir se faço uma query por uma table, ou por outra, não me dá satisfação nenhuma. é apenas uma análise do mais prático e/ou o que me dará o resultado mais correcto. puramente racional sem qq emoção envolvida
:P
"penso que penso e volto a pensar
se tu pensas dessa maneira
sabes que podes sempre errar"
8) RIMOU
Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 13h20er...
ia avacalhar... desisti =§
não sei se foi a emoção ou a razão o meu motor de acção
=&
Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 13h24e não percebeste que a conversa já tinha avacalhado??? ehehhehehee
Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 14h49pelo menos, o teu riso tá meio torto...
"ehehhehehee"
comecei a imaginar a entoação...
eh ehh e heh ee
ou
e heh h eh he hee(leia-se este último hi)
(possibilidades infinitas nos dão este 'e' e 'h')
8)
a minha gargalhada tem sempre um ligeiro toque de insanidade :PPPP
Dito por: dolphin.s no dia 17 de março 2004, às 14h57eh!
não pode, gargalhada é gargalhada, nos dias de hoje é uma insanidade, é isso a saude da cena
'desinsana'
Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 15h00sentir e pensar. pensar e sentir. deixam-me tonta, à deriva.
não se pensa com emoção nem se sente com o pensamento. não são ocorrências simultâneas. uma emoção pode levar a um pensamento, ou seja, antecedê-lo. um pensamento pode levar a uma emoção. quando sinto, não penso. quando penso, mesmo quando penso o que sinto, esse sentir já é passado, ainda que muito recente. sentir. pensar. o caos é confundir os sentimentos com pensamentos ou vice-versa. há palavras para o pensamento, não para o sentimento. posso tentare traduzir em palavras o sentimento, mas estas são mera representação. o sentimento-ele-mesmo é indizível. tonta.
hoje, tentei não escutar a emoção, tentei racionalmente ultrapassar a estreiteza do caminho. melhor fora não o ter feito. falhei ridiculamente. a emoção não quer saber da razão para nada.
será que, se fosse sempre racional, a expressão "péssimo dia hoje!" desapareceria?
Dito por: margem no dia 17 de março 2004, às 17h13"será que, se fosse sempre racional, a expressão "péssimo dia hoje!" desapareceria?"
nah! talvez o contrário... e ao contrário... e nem nisso acredito!
=[
Dito por: margarete no dia 17 de março 2004, às 18h16já conversei com muitas pessoas espantadas e, por vezes, estilhaçadas com os berros da emoção. afinal não controlavam o (seu) mundo, nunca o controlaram. levantam-se e, aos poucos, tentam recuperar, sem fazerem barulho, o trono perdido. vão andando.
conversei com outras que levaram banhos de razão quando ainda juravam que o mundo era eminentemente sensorial. desiludiram-se tanto que me parece que ainda não acreditam no tamanho do luto que têm pela frente.
acho que já não dá para separar as águas.
somos tudo; até normais.
=o
Dito por: margarete no dia 18 de março 2004, às 13h20