Se a estupidez, com efeito vista por dentro, não se confundisse com o talento, se, vista por fora, não tivesse todas as aparências do progresso, do génio, da esperança, ninguém desejaria ser estúpido e não existiria a estupidez. Pelo menos seria muito fácil combatê-la. O pior é que ela tem qualquer coisa de extraordinariamente natural e convincente. Por isso, quanto alguém considera um cromo mais artístico do que um quadro a óleo, este juízo comporta uma parte de verdade muito mais simples de demonstrar que o génio de Van Gogh. Da mesma forma se torna muito mais fácil e rentável ser-se um dramaturgo muito mais poderoso do que Shakespeare, um romancista mais igual do que Goethe; um bom lugar-comum é sempre mais humano que uma nova descoberta. Não surge um único pensamento importante do qual a estupidez não saiba imediatamente aproveitar-se, ela pode mover-se em qualquer direcção e assumir todos os trajes da verdade. A verdade, essa só tem um traje, um só caminho, por isso fica sempre de pior partido.
Robert Musil, in O Homem sem Qualidades
se a verdade tem um só traje, um só caminho... não sei se concordo
mas...
que a estupidez tem, realmente, muitos trajes e muitos caminhos... lá isso tem. =[
e... d., you did it again, no ponto!,este excerto!
Dito por: margarete no dia 9 de março 2004, às 12h54Bom dia, Dolphin.
Margarete, olá! Tu estás mesmo em todas!!!
;)
Dito por: Leitora no dia 9 de março 2004, às 13h47a borboleta é assim: bocadinhos dela vão-se espalhando por aí ;)
Dito por: dolphin.s no dia 9 de março 2004, às 14h37ando muito céptico...
reformulando: ando cheio de certezas quanto à minha própria 'estupidez' e à dos que pelo mundo avançam.
já não me lembro de ter um "pensamento importante", mas todos os dias me aproprio de uma boa ideia.
há momentos assim, jk. construções subjectivas que fazemos de nós mesmos -
pensando sobre o pensamento:
não serão todos os pensamentos apropriações de outros que o são de outros e assim sucessivamente? a importância do pensamento (ou a individualidade do mesmo) reside na maneira muito pessoal como, inconscientemente, "escolhemos" esta e não aquela ideia, porque esta e não aquela se aproxima ou interroga a nossa individualidade; como vamos interiormente relacionando, sobrepondo, estruturando e reestruturando ideias, até tecermos o nosso pensamento.
considerarmos um pensamento nosso importante não dependerá da expectativa que nele pomos, da função que lhe pretendemos atribuir,...?
e sim, há muita estupidez no mundo. e sim, há muitas pessoas que não se dão ao trabalho de serem cépticas ou de se interrogarem sequer sobre coisa alguma.
"a importância do pensamento (ou a individualidade do mesmo) reside na maneira muito pessoal como, inconscientemente, "escolhemos" esta e não aquela ideia, porque esta e não aquela se aproxima ou interroga a nossa individualidade; como vamos interiormente relacionando, sobrepondo, estruturando e reestruturando ideias, até tecermos o nosso pensamento."
muito verdade, margem; mas o problema começa(-me) quando a escolha deixa de ter o tal patrono inconsciente e passa a ser regulada por bestialidades como o conforto da pseudo-dúvida, a mecânica do discurso livre e outros artifícios que passam quase sempre por sincero e muito eloquente auto-questionamento.
ou seja; irrito-me quando percebo que caio no engodo da minha própria hipocrisia, e não é por me nomear 'aquele que procura' que me transformo naquilo que me nomeio.
[estou a precisar de um piling sináptico...]
"considerarmos um pensamento nosso importante não dependerá da expectativa que nele pomos, da função que lhe pretendemos atribuir,...?"
Certo. Um dos nossos GRANDES erros é avaliarmos os nossos pensamentos em função do que os outros pensariam se lhes contássemos. E em função das pessoas que estimamos ou não estimamos, para que lhes provemos alguma coisa que queremos provar a nós próprios.
Uma ENORME armadilha, esta. E estamos constantemente a cair nela.
Verdade só existe uma...
Quem define essa verdade?
A verdadeira estupidez será aceitar uma única definição de verdade...
O que escrevi deixou de existir...AGORA
Não se trata de incoerência.
Continuações... Progressões... Evolução...
Dito por: Carlos no dia 10 de março 2004, às 10h16"Continuações... Progressões... Evolução..."
E regressões... muitas regressões, que se pensam ser progressões - em círculos em torno da verdade sem a atngir. O "progresso" é apenas técnico/tecnológico - convençam-se disso.
Mais facilmente encontram a verdade os tipos reclusos em mosteiros no Tibete, que nós no meio de toda a nossa "evolução"
Dito por: Paulo Silva no dia 10 de março 2004, às 10h32atão! ó pá... faço sempre destas... sabem que não faço grandes dissertações em diferido... txiiiiiiiiii tava a fazer comentário com todos os vossos comentários...
...pois, vai daí, queria ter a certeza de que o carlos era mesmo o alentejano... clkiqei no nome... perdi tudo! pá! é tua culpa alentejano! cêpê! carlos! carlos pedro! fico baralhada!
fogo pá! e então... se não era profundo... acho que inté já se podia chamar corolário da verdade e da estupidez!
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só uma coisa: pieling sináptico... LOOOOOOOOOOOOOOOL!!! consegui visulaizar... dava uma boa imagem surrealista!
Dito por: margarete no dia 10 de março 2004, às 13h08Pelos vistos há vantagens na estupidez, no entanto critica-se tanto os lugares-comuns que me deixam uma pergunta:
Haverá paciência para suportar os lugares-comuns na estupidez, ou mais vale dar um tiro na cabeça
Dito por: Filipe no dia 10 de março 2004, às 18h23O que é verdade na nossa cabeça, é mesmo verdade... e não interessa que os outros não o saibam!
Parece-me! :)
Paciência já não há, mas não será a estupidez reinante o motivo para se dar um tiro na cabeça ;)
Dito por: dolphin.s no dia 12 de março 2004, às 10h10Concordo contigo Ivo.
Preocupamo-nos demasiado com a verdade dos outros, ou com o que os outros instituem como verdade.