Uma vista breve de campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro. Todo ponto de visão é um ápice de uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável.
Houve tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem sorrir. E uma delas, que quase todos os dias me lembram, é a insistência com que os homens quotidianos e activos na vida sorriem dos poetas e dos artistas. Nem sempre o fazem, como crêem os pensadores dos jornais, com um ar de superioridade. Muitas vezes o fazem com carinho. Mas é sempre como quem acarinha uma criança, alguém alheio à certeza e à exactidão da vida.
Isto irritava-me antigamente, porque supunha, como os ingénuos, e eu era ingénuo, que esse sorriso dado às preocupações de sonhar e dizer era um eflúvio de uma sensação íntima de superioridade. É somente um estalido de diferença. E se antigamente eu considerava esse sorriso como um insulto, porque implicasse uma superioridade, hoje considero-o como uma dúvida inconsciente; como os homens adultos muitas vezes reconhecem nas crianças uma agudeza de espírito superior à própria, assim nos reconhecem, a nós que sonhamos e o dizemos, uma qualquer coisa diferente de que eles desconfiam como estranha. Quero crer que, muitas vezes os mais inteligentes deles entrevejam a nossa superioridade; e então sorriem superiormente, para esconder que a entrevêem.
Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao homem activo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção. Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção.
Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida? Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o roamance antes que ele lhes seja feito, e, como Maquiavel, vestem os trajes da corte para escrever bem em segredo.
Bernardo Soares, in Livro do Desassossego
Publicado por dolphin.s em março 3, 2004 10:20 AM
dias 26 e 27 março, em coimbra, no gil, 'do desassossego', uma adaptação deste mesmo desassossego
importas-te de não me desassossegar, ó faxavor!!!!
Dito por: dolphin.s no dia 4 de março 2004, às 15h51he he
qué pra nã seres sp tu...
e te digo, tem bom aspecto até do que possa vir a ser, e já sabes queu nã sô crítica destas cousas
te resumo em abreviaturas o resumo:
é um monólogo interprtetado por dois personagens: um actor e um músico.
fpessoas será ele pp o músicos/ palavras, mas que através da execução musical de temas originais e, recorrendo aos + variados intruments, preencherá silêncios, anunciará mudanças........ o actor representará 6 personagens.....:o escriturário, a criança, o mendigo, o palestrante, homem/mulher, revoltado.........
=}
Dito por: margarete no dia 4 de março 2004, às 16h08fpessoa será ele pp o músico sem palavras
Dito por: margarete no dia 4 de março 2004, às 16h09quem me compra bilhete?
quem me compra bilhete?
quem me compra bilhete?
Dito por: i no dia 4 de março 2004, às 16h40primeiro temos de tratar essa gaguez
e o nome?... não sai mais nada senão i? ou é só i, mesmo?
os bilhetes 'tão caros
Dito por: margarete no dia 4 de março 2004, às 16h49
Raios !!!!
Não me lembro desse excerto do "Desassossego".
Espectacular !! Do melhor, do melhor !! Mesmo muito, muito bom. Abriste-me o espírito nesta esperançosa sexta-feira !
Dito por: Paulo Silva no dia 5 de março 2004, às 11h43
maggie,
já te mentalizas-te que amanhã me vais conhecer, no primeiro dia do resto dos teus dias ?
Dito por: Paulo Silva no dia 5 de março 2004, às 11h44pois é
=|
até lá
Dito por: margarete no dia 5 de março 2004, às 14h31Lindo...nao me lembrava desse desassossego....
Obrigada !
A vida também é tangível...
Dito por: António no dia 7 de março 2004, às 13h07Olá maggie! Saudades, pá. ;)
Dito por: Paulo Silva no dia 8 de março 2004, às 12h53pá, saudades
8}
e como diz o jotakapa... bláblá!
Dito por: margarete no dia 8 de março 2004, às 23h11