março 02, 2004

Sentirmo-nos justificados por existirmos

Jean-Paul SartreDesejamos que o ser amado nos ame para o podermos preencher com a nossa existência. Mas essa generosidade é interesseira: essa existência que a partir de agora sentimos ser invocada perde aos nossos olhos a sua facticidade, pretendemos motivar-nos, nós próprios e livremente, à existência, para satisfazer o desejo de uma consciência livre. Estas queridas veias nas nossas mãos, é por bondade que elas existem. Como somos bons por termos olhos, cabelos, sobrancelhas e os prodigalizarmos incansavelmente num excesso de generosidade a esse desejo incansável de outrem. Enquanto, antes de sermos amados nos preocupávamos com essa protuberância injustificada que era a nossa existência, que se desenvolvia em todas as direcções, eis que agora essa própria existência é retomada e desejada nos seus múltiplos pormenores por uma liberdade análoga à nossa — uma liberdade que nós próprios queremos juntamente com a nossa. É essa a essência da felicidade amorosa: sentirmo-nos justificados por existirmos. No fundo, não o estamos de forma nenhuma, apenas perdemos a nossa solidão, o ser que nos ama absorve-nos nele e nós escondemos a cabeça no seu peito, como o avestruz esconde a sua debaixo da terra. Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável. Nenhum amor pode justificar a nossa existência. Na realidade, é essa inautenticidade que eu censuro nas pessoas que tratam de ser amadas mas não amam. Ora, justamente, fui muitas vezes uma dessas pessoas. O que geralmente me atraía mais numa aventura era a necessidade de me revelar «necessário» a uma consciência, à maneira de uma obra de arte. Como um maná que se tivesse produzido por si próprio para a satisfazer. Mas devo dizer que quando se ama também, seja qual for o amor que o ser amado nos testemunhe, sai-se da solidão.


Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra

Publicado por dolphin.s em março 2, 2004 10:04 AM
Comentários

Olá dolphin!
ainda a questão da autenticidade e da "facticidade" do eu, não é?

fala Sartre de amor, mas generalizando: quererá ele dizer que só sentimos que realmente existimos/vivemos (não sei se filosoficamente, "existir" e "viver" se equivalem) se formos úteis, de algum modo?

Dito por: margem no dia 2 de março 2004, às 11h12

não, mas que sentimos a nossa existência justificada assim...

mas ele tb diz "Nenhum amor pode justificar a nossa existência"

de qq maneira, acho que é demasiado subjectivo, que varia de ser para ser, aquilo que o faz sentir que vale a pena...

estou demasiado laconica ;)

Dito por: dolphin.s no dia 2 de março 2004, às 12h16

"não, mas que sentimos a nossa existência justificada assim..."

é isso.
também com as palavras ando lenta (as lidas, as escritas) - lamacentas, as margens do rio vão-se tornando infecundas -


(tudo bem contigo?)

Dito por: margem no dia 2 de março 2004, às 12h55

sim... acho que sim....
este livro fez-me viajar muito ;)

e estou a ficar entusiasmada com a "tal" viagem ;)))


tenho pena de não te ver por lá :(

Dito por: dolphin.s no dia 2 de março 2004, às 14h43


A minha consideração por Sartre está a aumentar com esses excertos dos "Cadernos de Guerra". Começo a ficar com "inveja" de não os ter. Grrrr...

"Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável"
"Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável"
"Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável"
"Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável"
"Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável"
"Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável"

CTRL-ALT-DEL

Dito por: Paulo Silva no dia 2 de março 2004, às 15h49

"Porque a nossa solidão não existe sem que tenhamos assumido a nossa facticidade injustificável"

é mesmo existencialista esta afirmação.

nascemos, passamos a existir, somos um facto. depois, a essência desse facto, essa já fica por nossa única e exclusiva conta. nada nem ninguém justifica o que somos, é isso que Sartre pretende dizer? o homem projecto de si mesmo. portanto, o homem só.

(enfim, coisas que vou lendo, coisas que me ocorrem, frágil tentativa de não esquecer as palavras)

Dito por: margem no dia 2 de março 2004, às 16h50

dolphin, a viagem... o encontro no fds? vai ser fixe, vais adorar!

(sabes, nestes dias sair de casa pela manhã já vai sendo bom...) - paradas, as margens escutam a turbulência das raízes -

Dito por: margem no dia 2 de março 2004, às 22h56

Bem interessante seu blog...

Dito por: Circe no dia 3 de março 2004, às 04h33

"nada nem ninguém justifica o que somos"

"o homem projecto de si mesmo. portanto, o homem só."

o homem como único responsável por si, pelas suas acções, pela sua existência. o homem como única justificação para si mesmo.
Responsabilizar-se por si....

tão difícil para tanta gente.. gente que tem toda a sua existência justificada pelos outros, pessoas ou seres divinos.

Dito por: dolphin.s no dia 3 de março 2004, às 10h24

brigada Circe :)


margem: vou gostar sim! e já tenho muitas saudades do Porto :)

mas não verei as margens e a suas margenzinhas??

Dito por: dolphin.s no dia 3 de março 2004, às 10h25

OH NÃO!!!!

não sabia que a margem também ia mas não vai!!!!!!!

ó!!!!


carago!

Dito por: margarete no dia 3 de março 2004, às 13h13

engano, Margarete, eu não ia mesmo, nunca pensei sequer ir.

Boa tarde! acabei o trabalho da manhã, mas logo há mais :(

Dito por: margem no dia 3 de março 2004, às 13h17

foi quando soubeste que eu ia? decidiste logo, foi? se a margarete vai... eu nem ponho lá os pés!

foi?


ó
ó eu a precisar de atenção, que me digam, "não margarete, não, nada disso, eu até queria mm ir por tu ires tamãe"

hehe

tou parva
hoje tou mázita, sarcástica mêmo
:::::::::::::::::::::::

pois, marge, eu tamãe acabei o travalho da manhã e agora vou para o da tarde... e não me patece nada......

Dito por: margarete no dia 3 de março 2004, às 14h18

prontos, eu digo: "não margarete, não, nada disso, eu até queria mm ir por tu ires tamãe"

(a verdade é que desde início nem me passou tal ideia pela cabeça, nem disse no fórum)só há pouco tempo me dei conta que ias e fico contente.

e agora ao trabalho, qu'o homem fez-se para trabalhar, e etc e tal... ;)

Dito por: margem no dia 3 de março 2004, às 14h44

tás doida?!!!!!!!!!

o homem foi feito para trabalhar?!!!!!


endoidou de vez!


dou-te uma lista de mil coisas para que o homem foi feito...


para trabalhar é um resultado da 'evolução'
=[

Dito por: margarete no dia 4 de março 2004, às 08h59

choro... pq não vais

8,(

tremo... pq tenho medo do sr.citador, a gabardine dele é medonha, tem post it's colados no interior com citações e usa um chapéu, medonho tb, onde guarda as citações mais secretas

Dito por: margarete no dia 4 de março 2004, às 09h02

então? aquilo do trabalhar era no gozo, claro ;)

doida? sempre. literalmente.

do sr. citador, nada receies. é um amigo, mesmo! (o chapéu medonho e a gabardine é só estilo, 'tás a ver?).

Dito por: margem no dia 4 de março 2004, às 10h01

ócêzes já tinham obrigação de saber, margarete é tótó, muito crédula, não lê nas entrelinhas e não entende sarcasmo... inda bem que tavas a brincar margem, continuo cheia de pena, não ires... =|

Dito por: margarete no dia 4 de março 2004, às 14h16