fevereiro 27, 2004

Autenticidade

Jean-Paul SartreA autenticidade adquire-se em bloco, é-se ou não se é autêntico. Mas isso não significa de modo nenhum que se adquira a autenticidade de uma vez para sempre. Já afirmei que o presente nada pode sobre o futuro, nem o passado sobre o presente. Segundo Gide, em moral, tal como no romance, não se «tira proveito do impulso adquirido». E a autenticidade do impulso anterior em nada nos protege contra um queda no inautêntico, no instante seguinte. Quando muito, poderemos dizer que é mais fácil conservar a autenticidade do que adquiri-la. Mas, na verdade, poderemos mesmo falar de «conservar». O instante que está para vir é novo, a situação é nova; é necessário inventar uma autenticidade nova. De qualquer forma, dir-se-á, a recordação do autêntico deve proteger-nos um pouco da inautenticidade.
Isto leva-me a precisar também aquilo que disse sobre o desejo de autenticidade. No inautentico, podemos ter um certo desejo de autenticidade. É costume considerar que esse desejo de autenticidade é «apesar de tudo qualquer coisa. É melhor do que nada». Assim se restabelece, lentamente e por caminhos ínvios, a continuidade que à partida fora posta de lado. Distinguiremos então os inautênticos atolados na sua inautenticidade, depois daqueles que nesse atoleiro são atormentados por um desejo já meritório, e por fim aqueles que participam no autêntico. É preciso dizê-lo; da duas uma: ou o desejo do autêntico nos atormenta no seio da inautenticidade - e nesse caso ele próprio é inautêntico - ou então ele é já a autenticidade toda inteira, mas que se ignora, que ainda não está recenseada. (...)
A autenticidade adquirida através de uma transformação livre manifesta-se primeiro sob a forma de uma desejo de autenticidade. Este não faz então mais do que exprimir que a causa está ganha. (...)
O desejo de adquirir a autenticidade não é afinal senão um desejo de compreendê-la melhor e não a perder.


Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra


Publicado por dolphin.s em fevereiro 27, 2004 10:08 AM
Comentários

ó d., ó explica lá que eu, (já sabes, eu e o meu neurónio, às x, mt sózinhos não conseguimos compreender sem um empurrãozito...)

ó explica lá, o que entender por autenticidade... o valor de se saber detentor dela... a necessidade

algo autentico não é algo inquestionável?

fico baralhadita... tou no caminho errado?

"O desejo de adquirir a autenticidade não é afinal senão um desejo de compreendê-la melhor e não a perder."

não percebo... porque um desejo de adquirir autenticidade?
desejo de compreender... ok, é sempre mt importante a necessidade de compreender mas, desejar, a possessão da caracetr´sitica de autenticidade, o desejo de não a 'perder'...

=/

Dito por: margarete no dia 27 de fevereiro 2004, às 11h43

"Este não faz então mais do que exprimir que a causa está ganha."

só tu podes responder pela tua autenticidade. Quando te questionas sobre ela é pq ela já é presente em ti.

"O instante que está para vir é novo, a situação é nova; é necessário inventar uma autenticidade nova."

E nunca é inalterável, será construida a cada novo momento, em cada nova situação. Ao construires-te, constrois a tua verdade, a tua autenticidade.

a nossa autenticidade é intríseca. nós sentimo-la e sentimos também quando damos um passo em falso e nos traímos a nós mesmos, à nossa autenticidade.

Dito por: dolphin.s no dia 27 de fevereiro 2004, às 14h10

é claro que isto são só as minhas interpretações da "coisa" ;P

Dito por: dolphin.s no dia 27 de fevereiro 2004, às 14h11

por exemplo... há autênticos idiotas... (ali em baixo...)


:::::::::::::::::::::::::::


pois... qto à questão, d., é que nem alguma vez me passou questionar a autenticidade... acho eu, que me lembre...
e... dar passos em falso, a 'traição de nós mesmos'... não acredito mt nisso, tu sabes, aquela coisa de 'na verdade, optei pelo comportamento', de seguida, apenas há que tomar a responsabilidade

olha... a cena... beware for what you want, you may get it

enfim, para não fugir à autenticidade, a minha questão é mais... o que leva a questioná-la? porquê? é importante para o quê? será realmente assim tão importante saber-se autântico? e, na verdade, o que é ser-se autêntico?

um pak para ti:

pak: jito + xi gane gane

Dito por: margarete no dia 27 de fevereiro 2004, às 14h35


O que é ser-se autêntico ? Se eu nem sei muito bem onde está a minha autenticidade, quando tantas vezes olho para trás e tenho dificuldade em dizer se fui ou não autêntico nesta ou naquela situação?

eh pá, dêem-me o contacto de um bom psiquiatra... a leitura destes textos, e do Citador, estão-me a baralhar completamente a cabeça.

Para começar, ajudem-me a dizer quem eu sou, que eu próprio já não sei

Dito por: Paulo Silva no dia 27 de fevereiro 2004, às 14h51

és o citador... o sr citador... atão! nã'talembras?

a questão, como a colocas, é o mesmo que eu tb penso, acho eu... a autenticidade porquê?

olha... qto ao psi... posso dar um jeitito... o meu trabalho é ser uma espécie de endireita-magapatológica e dou uns toques, claro que não me responsabilizo por suicídios alheios!

=/

Dito por: margarete no dia 27 de fevereiro 2004, às 14h56

é pena... tenho de ir em minutos... e ainda falta tanto para o fim de semana...

Dito por: margarete no dia 27 de fevereiro 2004, às 14h56

pois eu nunca soube quem sou, ou se soube, é um saber que está tão bem fechadinho a sete chaves no mais fundo dos fundos que nunca o vou descobrir. isso de "autenticidade", existe mesmo?

(por acaso, acho que já uma vez tinha escrito por aqui que sim.) vou pensar melhor.

Dito por: margem no dia 27 de fevereiro 2004, às 15h10


Sei que sou:
Bom, de uma forma geral
Mau, quando me apetece ou me dá na telha
Justo, perante situações justas
Injusto, quando me apetece
Passivo, está-me no sangue
Extremamente activo, quando me dá na gana (e dá-me muito)
Silencioso, faz parte de mim
Gosto de falar e muito, não me calo, muitas das vezes
Adoro as pessoas, em grande parte do tempo
Desprezo as pessoas, na outra grande parte que resta
Represento imensos e inúmeros papeis, sem os reconhecer. Quase todos os dias descubro novos papeis que nunca tinha imaginado poder representar
Chateio-me comigo prório por não agir de determinadas formas em determinadas situações. Congratulo-me comigo próprio por não agir de determinadas formas em determinadas situações.
Não gosto de ir na molhada; mas também gosto de ir na molhada, muitas vezes.
Gosto de agradar, gosto de ofender, gosto de ser adulado, gosto de ser ofendido - tudo faz parte, tudo enriquece a nossa experiência.

Se disserem que sou qualquer das coisas que eu disse acima, eu nego - veementemente - pois não sinta que seja, na realidade, nada disso.

Autenticamente, sou um ser humano como todos os outros, com imensos defeitos, e algumas qualidades.

O melhor de mim já o conheço, o pior de mim ainda não, e quanto mais escavo, mais descubro a negritude do meu pior.

Tudo o que vejo o ser humano fazer, no mundo, por mais odioso e repugnante que possa ser, sinto vivê-lo dentro de mim próprio - assusto-me, claro, mas não sou hipócrita comigo próprio.

No meio disto tudo, a questão da autenticidade, é, quanto a mim, uma falta questão - é, acima de tudo, uma questão de "aparência" perante nós próprios, aquilo que julgamos, que construímos, que queiramos que seja a nossa "autenticidade".


Merda para isto tudo !!!! arghhhh !!!!

Dito por: Paulo Silva no dia 27 de fevereiro 2004, às 15h26

err... desculpem o meu desabafo acima, e o seu término... não estava a ser eu próprio... ou estaria ??????

argghhhh !!!!!!!!!!!!!

Dito por: Paulo Silva no dia 27 de fevereiro 2004, às 15h28

merda mesmo!
às vezes dou em doida de tanto pensar!

tudo isso que dizes que és é autêntico, porque o sentes assim. não podes negar nada. porque só vejo que a nossa autenticidade possa residir em tudo aquilo que somos, ao longo de toda a vida: o que já fomos; o que somos agora; o que viremos a ser; as nossas várias facetas e ambiguidades e contradições, num só momento às vezes, em momentos diferentes outras. são os "eus" e a nossa autenticidade só pode residir na co-existência de todos eles, ou seja, no todo.

o que, diga-se, é inquietante e muito destabilizador, melhor, é inquietante e destabilizadora a consciência disso. por isso, a busca desesperada de uma aparência única, que possamos tomar como autêntica perante nós e perante os outros (a necessidade de termos referências, pontos de apoio,...)

Dito por: margem no dia 27 de fevereiro 2004, às 15h41


As nossas referência e pontos de apoio não serão apenas muletas para camuflarmos a nossa autenticidade ?

Não será a autenticidade algo que forjamos ?

Dito por: Paulo Silva no dia 27 de fevereiro 2004, às 16h36

não sei se entendi.
camuflamos a nossa autenticidade com referências exteriores (que não nos são intrínsecas, inatas) e esse processo seria o construir/forjar da nossa individualidade/autenticidade?

isto é tudo muito confuso.
autênticos, no sentido de genuínos, se calhar, deixamos de ser logo à nascença. ou não perdemos aí a nossa inocência absoluta, iniciando um processo irreversível de crescimento e formação individual e social, gradualmente mais racional e consciente?
autênticos, no sentido de aceitarmos que somos tudo o que somos, mesmo quando representamos papéis, mesmo quando nos sentimos estúpidos, mesmo quando não gostamos de algumas coisas em nós, mesmo quando nos sentimos "estrangeiros" dentro de nós,... já não sei!

(e nisto acho que não há psis. que ajudem!)


Dito por: margem no dia 27 de fevereiro 2004, às 17h05


margenzita, não te esqueças de ler "Um, Ninguém e Cem Mil", de Luigi Pirandello.

A sério, é baratito, da colecção do DN, e ajuda bastante a discutir ainda com menos reserva este tema do eu, ao qual reverte a questão da autenticidade.

Dito por: Paulo Silva no dia 27 de fevereiro 2004, às 17h20

Então neguem veemente! Não, não neguem! Sente-se que sinto tudo isso! Acordem! Nem que seja com um duche de água fria!
...Será bom acordar? E se acorda e de seguida a LUZ se torna...
....Digo LUZ ( coisa estranha, - acorda? então não é quando acordamos que vemos a luz do dia?)!
Pois, ...., mas só Alguém com tanta LUZ, pode deixar sair pela fresta desta janela, tanta luminosidade e encanto para quem o LÊ !
...----- Deverá Alguém com tanta LUZ, adoptar o método do "just-in-time(método que visa eliminar todas as fontes de desperdício, eliminar tudo o que não acrescenta valor à empresa)em busca da autenticidade?
Não!
Razão:-Diagnóstico feito, aponta para a inexistência de desperdicios! Tudo acrescenta valor á empresa!- Conclui-se no entanto,existir necessidade de maior eficiência na racionalização dos recursos disponíveis!
...---Dificuldade em alcançar essa LUZ?
Muita, mas não pensem mais! Tarefa árdua,muito morosa, mas não impossível!
Passo a citar:
Os antigos pensavam que a luz tinha velocidade infinita. Isto é, achavam que ela podia percorrer qualquer distância, por maior que fosse, sem gastar nenhum tempo para isso. Talvez o primeiro a tentar medir a velocidade da luz tenha sido Galileu. Tentou mas não conseguiu, com os meios que dispunha, porque a luz é rápida demais. No tempo que você leva para piscar os olhos ela já foi de Manaus a Porto Alegre. Hoje todo mundo sabe que a velocidade da luz é aproximadamente 300.000 quilômetros por segundo.


Bjnhs para todos
As vírgulas! As virgulas que se lixem!
Desculpem o blá blá blá neste local, em procuro para além da LUZ, também o meu Silêncio!!! Obrigado(a)

Dito por: me no dia 27 de fevereiro 2004, às 17h22

a autenticidade é precisamente aquilo que não forjamos!

não sentem quando estão a trair a vossa essência? quando usam uma mascara, quando fazem algo que vos deixa desconfortavel apenas para se sentirem integrados? isso são passos na inautenticidade.
a autenticidade sentimo-la como nós mesmos, quando sabemos, sentimos, que somos nós, verdadeiros, fieis à nossa essência.

podemos não saber quem somos de facto, podemos esgotar o tempo a tentar descobri-lo sem nunca lá chegar, podemos perder-nos de nós mesmo muitas vezes - mas acredito que sentimos sempre quando somos autênticos... e, por inerência, quando somos inautênticos.

Dito por: dolphin.s no dia 27 de fevereiro 2004, às 19h32

adoro!
a autenticidade desta gente que por aqui passa!

LOL

encontrar aqui este palavreado todo:
paulito, adorei o teu discurso todo dali... revi-me
margem, compreendõ tb o teu poto de vista
me... quem sois?... pois... a luz, é isso... o sol, mesmo atrás das nuvens, mesmo à oite porque é dias algures sempre detro de nós
d. d. d., sim gaija, e goste mui mui de ti!

LOL d., imagino a tua expressão ao ler isto... esperas tudo de mim né?!... é bom sinal...
chama-se amizade... LOOOOL, tou assim! autenticamete lamechas!
já agora, em resposta completa incompleta à sms... jinhoooooo

8)

Dito por: margarete no dia 27 de fevereiro 2004, às 21h54

sim... "existir em segurança no seio da sua liberdade"!


sim
sim
sim!

8)

Dito por: margarete no dia 27 de fevereiro 2004, às 21h55

esta é a visita 1. procuro ser de poucas letras e muitas palavras ditas. é uma procura autentica, no momento.
gostei francamente dos temas expostos. serei um autentico visitante. saudações

Dito por: carlos peres feio no dia 28 de fevereiro 2004, às 09h27

Olá margarete, olá dolphin's, ou ao contrário, que primeiro se costuma cumprimentar a dona da casa, que neste caso será do blog. Qué feito? Será que alguma tem para me emprestar O que é a Literatura, do Sartre. Pode ser em francês :-) Beijos

Dito por: luis no dia 29 de fevereiro 2004, às 22h24

Não Luis, não tenho :(

Ando irritada por ver tanta oferta em francês e não conseguir meter na cabeça arranjar tempo para desenferrujar o meu francês....
E últimamente nem aos alfarrabistas tenho ido :(

Dito por: dolphin.s no dia 1 de março 2004, às 10h21

olá... fugi um bocadinho...

luís? desculpa... qual?

veizos

=]

Dito por: margarete no dia 1 de março 2004, às 10h27

"não sentem quando estão a trair a vossa essência? "

Boa achega, dolphin.s. Então, posso resumir-me assim:

Sei quando NÃO estou a ser autêntico.
Não sei quando estou a ser verdadeiramente autêntico.

É isso :(

Dito por: Paulo Silva no dia 1 de março 2004, às 16h10