— Pois bem, começo pelo que, talvez por ser tão evidente, me parece que nunca ninguém reparou, ou quis reparar. A primeira, foi a mania da vanguarda, um mito provinciano de que padecem os espíritos tíbios ansiosos por protagonismo. Assim, ainda as pátrias ibéricas estavam longe de se encontrarem definidas, e resolvemos desatar a berrar por independência, inaugurando uma avalanche de movimentos de autonomia, libertários, emancipadores, chame-lhes como quiser, que culminou com a suposta independência de um país que se encontra num estado, desculpe-me a expressão, que até para cagar tem de pedir licença ao vizinho, para lhe fornecer o papel higiénico, não é verdade? Depois, como se um azar já não bastasse, decidimos lançar-nos na empresa épica — é assim que os compêndios continuam a referi-los, não é? —, dos descobrimentos. Não conseguimos roubar um terço do que roubaram todos os outros que se nos seguiram, como pretende o nosso ego de candeia que julgava que ia na frente, e quando chegou a hora, tardia, tardia, como sabe, de darmos às de vila diogo, fomos acusados de roubar o triplo, de chacinas que transformaram todas as outras em simples acidentes de um percurso corrigido a tempo. Antes de sermos devolvidos à procedência donde — na minha modesta opinião — nunca deveríamos ter saído, depois de Ksar-El-Kebir, quando nos foi dada uma última oportunidade de voltarmos a integrar o conjunto das pátrias ibéricas de que fazemos parte, não parámos enquanto não nos encontrássemos outra vez orgulhosamente sós, e a levar porrada de toda a comunidade civilizada. É assim que se diz não é, civilizada? Coisa estranha, num país que se habituou a não fazer nada e a dar cabo de tudo o que por artes mágicas ainda lhe vão dando, e que passa a vida a choramingar baba e ranho por investimento estrangeiro — pudera, que outro poderia ele pedir se tudo aquilo em que alguma vez investiu só deu merda? —, sem no entanto ter a coragem e a honestidade de dizer: bom, estrangeiro, mas não castelhano. Esquisito, não acha? Ou será que afinal, bem, bem lá no fundo, não os consideram estrangeiros? Ou será tão grande a demência, o ódio, que nem estrangeiros os consideram? Deixo-lhe a si a resposta... E já agora, o amigo, insisto, que estou certo que é uma pessoa inteligente e culta, se for capaz, agradeço-lhe que me explique o que é ser-se estrangeiro.
Jorge Fallorca, in Al Khaïma
No limite, estrangeiro é tudo o que é fora do nosso bairro, normalmente geográfico; para os mais "instruídos", esse bairro será mais virtual, mas existirá na mesma.
Bem, mas na questão presente há uma espécie de bairrismo. os tipos de "Vila de Baixo" são capazes de preferir o pessoal de fora que os tipos de "Vila de Cima", com quem têm constantemente rixas e desacatos.
É um bairrismo um pouco mais global, a nível de um país, mas eu vejo-o bastante nesses termos.
Por isso, não me admira considerar-se estrangeiro alguém que é da própria terra. E não está mal a designação, estrangeiro é todo aquele com quem não nos identificamos ou por quem temos alguma antipatia, pode até ser o nosso vizinho, e o nosso parente distante do Alaska não é, de forma nenhuma, um estrangeiro.
Dito por: Paulo Silva no dia 26 de fevereiro 2004, às 18h24Quando somos estrangeiros em relação a nós próprios,a quem mais,iremos e poderemos chamar estrangeiro...????
Dito por: morfeu no dia 26 de fevereiro 2004, às 19h06Pergunta um tanto ou quanto retórica, digo eu. De qualquer forma, qualquer que seja a resposta nunca irá satisfazer o autor da pergunta...
Dito por: Vânia no dia 26 de fevereiro 2004, às 23h24Bom, chamar tíbios aos que se atreveram a inaugurar o regionalismo com total autonomia, contra um mar de inimigos a leste, é um bocado exagerado.
O país não está famoso, mas a Espanha já esteve pior que nós, na Guerra Civil e depois por exemplo.
Assim de repente lembro-me que na África do Sul, o roubo dos civilizados Boers e Cª terminou depois e foi talvez pior.
Que hesitamos demasiado com Salazar não há dúvida mas para num país com 8 séculos não pode correr tudo pelo melhor.
Não considero estrangeiros os espanhóis, até defendo uma aproximação de pelo menos Norte e Galiza.
Quanto ao autor do texto deve estar com dor de dentes, para publicar um vómito destes...
ehehehehe
demasiado fácil conseguir provocar nacionalismos cegos. demasiado prevísiveis....
morpheu, é-me inerente nos tempos que correm, nos lugares que frequento por obrigação, sentir-me estrangeira.
não acho que seja mau sentirmo-nos estrangeiros... não nos acomodamos ;)
os acomodados ofendem-se e rotulam com demasiada facilidade...
Dito por: dolphin.s no dia 27 de fevereiro 2004, às 10h03Dei aqui uma volta pelo blog nos arquivos deste mês e só vejo textos transcritos, é isto uma forma de acomodação? é ser cego ou gostar dos rótulos dos outros?
é ser cego querer que todos sejam iguais? ou é ser o quê? massificado?
e será o quê achar que os outros devem ser/fazer aquilo que nós, donos da verdade absoluto, do único bom-senso, da bem-abençoada normalidade, nós os únicos que sabemos realmente como os outros devem ser e têm que fazer....
já pensaste em dar um melhor arranjo visual ao teu blog? será cegueira? ou apenas incapacidade pura?
Pedro Lima,
Saudamos todos os novos visitantes. Os novos visitantes são convidados a visitar a casa.
Não sendo pró-activo na vontade de visitar o nosso blog, o Pedro Lima - sim, que visitar um mês neste blog é igual ao que representa um pintelho numa vasta cabeleira púbica -, informo-o que o carácter deste blog é ter uma intervenção pessoal dos seus criadores através de excertos, etc. extraídos de livros, de autores publicados, e que foram lidos integralmente.
O vómito, o seu, parece-me despropositado por ignorante, mas todo o ser que é novo tem desculpa.
Pedro Lima, quero aqui escrever-lhe que me parece impróprio referir: uma aproximação de pelo menos Norte e Galiza, uma vez que está a evidenciar, desnecessariamente, regionalismos idiotas! Claro, que o que pretendia dizer era uma aproximação de Portugal à Galiza , quero apenas recordar-lhe que qualquer das expressões é vazia de sentido face à realidade geográfica e à evidência política.
Mais, se queria afirmar que pretendia que a Galiza se unisse politicamente a Portugal enquanto um só estado nação, pelas tradições, pelas língua, etc., a minha opinião sincera sobre esse sentido é uma breve gargalhada: sendo a Galiza uma das nações mais pobres de Espanha e Portugal pobre também, a sua intenção é somar zero com zero?
A pergunta é retórica e, por isso, não carece de resposta. Bem haja.
Bem, este debate meio privado não foi do mais positivo que já li, mas tem alguns fundamentos... De qualquer maneira, venho apenas dizer que gosto muito da Galiza, por isso terei que defendê-la um pouco: é um zero mais evoluído que nós...
Quanto aos nacionalismos, estão provados: a Galiza quer que façamos parte dela; nós não nos importávamos que ela fosse nossa... mais uma pergunta retórica: qual será o mais nacionalista?!
Antes de tudo, gosto de Portugal, mas continuo a considerar importante conhecer outros países, mesmo com rótulos de estrangeira... (rótulos: coisa feia!)
Quanto ao texto, era óptimo! (Temos que ter a mente aberta, principalmente, para perspectivas diferentes das nossas.)
Perante o comentário da Vânia venho, então, pôr alguns pontos no ii, no que a mim me diz respeito. Mas antes quero dizer à Vânia, que aqui no Silêncio não somos elegantes nem politicamente correctos: dizemos o que nos vai na alma ;) e lavamos os corpos de quem precisa, não temos nojo nem receio. :)
não sou nacionalista - muito pelo contrário porque não acredito em fronteiras nem em conceitos de identidades baseados em estados nação
a minha argumentação incidiu sobre o reduzido palavreado apresentado pelo Pedro Lima.
penso que a D. Teresa tinha razão e o filho foi idiota em lhe ter dado uma chapada
gosto de Portugal à minha maneira, muito própria diriam alguns, que revela angústia e fala de merda: sobretudo das pessoas, uma vez que as pessoas é que constroem conceitos e se arrogam direitos, etc..
a Galiza é um excelente território com gentes fascinantes.
e, finalmente, em termos económicos e políticos - base da minha primeira intervenção - considero que Portugal deveria ser, no mínimo, uma nação de Espanha. (continuo a defender, também, a independência da República das Bananas da Madeira)
Dito por: jm no dia 28 de fevereiro 2004, às 12h51«A primeira, foi a mania da vanguarda», quantos estados nação, se formaram antes e depois?
Não deviam autonomizar-se nenhum povo ou região ou clãs?, devia a humanidade manter-se homogênea e estática na manifestação da sua identidade cultural desde a altura em que era constitída por 2 000 indidíduos? Devia o "ferra na mãe" esperar que as pátrias ibéricas se defenissem para se decidir?
Se Portugal fosse assim tão mau porque razão quizeram os Filipes mandar nesta parte do quintal?
Não sei quando foi escrito o texto que o autor publicou, mas não se lembrará de quando Portugal e Espanha dividiram o mundo em Tordesilhas, para uma nação com dificuldades em evacuar não está nada mal.
O autor refere-se aos descobrimentos como um falhanço e esquece a não se terem verificado teriamos perecido como nação. Não fizemos o que o autor desejava para Portugal. Mas isso não serve como argumento para nada.
Depois de Alcácer Quibir, os nossos irmãos levaram muitas das riquezas ornamentais e decorativas que aqui haviam, de tal maneira que tivemos de copiar dos Árabes a decoração com azulejos.
A comunidade civilizada de que fala o autor será a mesma à qual nos juntamos para dar restablecer a democracia na Mesoptâmia?...estamos, portanto, a arrepiar caminho.
Portugal nunca investiu em nada que desse bom resultado?, não é verdade, basta olhar para o mobiliário do séc XVIII feito nesta terra para perceber isso. O termos acabado com a pena de morte muito antes dos restantes. Termos tido universidade em Coimbra desde o séc XIII.
Ao contrário dos bascos ou catalães já somos donos do nosso destino.
Este texto publicado é desconstrutivo não é uma tentativa de desmonte para interpretação.
Quanto ao mais, emigrem.
Saudações
jm:
Agradeço a compreensão e retribuo (ou já retribuí...).
Quanto a D. Teresa e D. Afonso, decerto um complexo de Édipo mal resolvido... ;o)
(Já agora, não foi minha intenção fazer um discurso "elegante" nem "politicamente correcto", apenas sincero.)
Bem haja!
"teriamos perecido como nação"
infelizmente não tivemos essa sorte...
mas fico contente por termo investido em mobiliário.... salvou-nos da merda.
Dito por: dolphin.s no dia 1 de março 2004, às 10h16