Mistler vem procurar-me. «Queria fazer-te uma pergunta sobre os soldados-pais.» — «Diz lá.» — «Reparei, como tu, que todos eles afirmam sentir mais falta dos filhos do que das mulheres. Porque será?» — «Para disfarçarem o fracasso da sua vida conjugal. A partir da declaração de guerra, podem colocar um traço sob a sua vida passada e fazer o balanço final. Está tudo morto, pode fazer-se um exame e dizer-se: qual foi o meu mérito? Bom, as suas relações com as respectivas mulheres surgem-lhes tal como elas são: medíocres e falhadas. Então eles afastam-se delas e entretêm-se a pensar nos filhos. O filho ainda não é nada, não há um balanço a fazer. Pelo contrário, ele é o futuro. O futuro deles, bem como o seu: é o pós-guerra, um pós-guerra que é o seu, visto que eles fizeram o filho. É uma maneira de pensar: a minha vida ainda não está acabada, o balanço ainda não está feito, há uma prorrogação. O filho é a única prorrogação dessa vida morta.» — «Mas», diz Mistler, «não haverá cataclismos individuais em plena paz que possam induzir um indivíduo a pensar dessa maneira?» — «talvez, mas nesse caso é diferente. Em tempo de paz há um sistema individual, a vida de um homem e as suas coordenadas: a época. O sistema individual pode variar, mas as coordenadas permanecem fixas. Ele varia em relação às coordenadas. Portanto, não há nunca essa paragem total da vida. Pelo contrário, logo que surge a guerra, faz-se o traço, não é apenas o sistema individual que pára e estagna, são também as coordenadas. Tudo cai no passado, pode-se analisar a vida, a época e a vida, pois esta é construída com materiais fornecidos pela época. Seria a altura ideal de serem livres, mas eles não querem. Evitam a liberdade total em relação a essa vida falhada através do amor paternal.»
Jean Paul Sartre, in Cadernos de Guerra