Sim: gritar, protestar é bom. Destruir a evidência de um erro é sentir a utilidade das mãos que destroem, é exaltar as forças do espírito na maravilha indizível da descoberta - desde criança o sabemos; por isso os brinquedos que nos davam só eram bem nossos, só nós éramos bem nós em face deles, depois de lhes tentarmos o segredo pela destruição... As pessoas sensatas, essas que sabiam não haver senão morte para lá da beleza aparente, aconselhavam-nos a sua sensatez. Mas nós tínhamos as nossas mãos desocupadas e a angústia da interrogação. Destruir, negar. As mãos que desmantelam a ordem envelhecida são ainda a nossa própria vida, transmitem-nos a certeza de que há um mundo e nós no meio dele, identificam a inteira verdade do nosso corpo que age e é eficaz; e o rumor dos nossos gritos afoga as vozes obscuras e importunas, a nossa voz derradeira, ilude-nos a resposta à interrogação que nos espera, inventa-nos no NÃO essa ilusão de plenitude que nós buscamos no SIM.
Vergílio Ferreira, in Carta ao Futuro
Este comentário foi anexado por engano na posta acima...
"O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de facto só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência"
Nietzsche, Friedrich
Prefiro a definição de Nietzsche à de Vergílio... muito simplesmente porque a palavra destruir em Português é demasiado forte e não gosto da expressão desconstruir por a achar pomposa...
Um abraço, se calhar um pouco confuso...
Francisco Nunes
Não.. compreendi-te :)
Nietzsche tem uma maneira mais directa de expressar o seu pensamento. Não faz rodeios...
É um dos motivos porque gosto tanto de o ler. Às vezes ser incisivo é mais eficaz :)