Só há vontade num ser lançado no mundo. É o mundo que liberta a consciência investida pelos seus próprios objectivos para além de um real que torna a sua realização imediata impossível. Ela define-se pelo desfasamento necessário entre o objectivo e a concepção de objectivo. Só pode haver vontade se o mundo inteiro se intercalar entre a minha consciência e os seus fins. Se um génio me der o poder de realizar imediatamente os meus desejos, fico apático, por não poder mantê-los à distância, por não poder impedir que eles se realizem. Foi o que perceberam obscuramente os narradores que nos contam histórias de desejos cumpridos e que acabam mal.
Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra
d.
li isto e lembrei-me de ti e de passadas conversas no teu silêncio
sei que nada tem a ver com o post mas deixo-o aqui mesmo
abrir aspas
INSÓNIA
Vem a noite!
E com ela vão se apagando os meus sentidos.
Fecho os olhos!
O silêncio me invade!
A noite não tem cheiros especiais.
O tato se dilui com o contato dos lençóis.
O gosto é o mesmo de sempre, gosto de nada.
Vem a noite!
E com ela vão se apagando os meus sentidos.
Quando eles se apagam de todo,
eu me encontro comigo!
Todos os meu "eus" se encontram!
Se agridem, se ferem, se amam, se acariciam,
se maldizem e se elogiam.
Quando se apagam os meus sentidos,
há um enorme tumulto dentro de mim!
O Eu que eu queria ser, agride o Eu que sou.
Estes dois Eus são tão instáveis,
que não têm nem mesmo uma personalidade definida.
Cada um deles é tantos outros Eus.
O Eu que imagino que fui, o Eu que serei,
o que julgo que os outros vêm, o Eu dos meus sonhos,
o dos meus ideais mais altos, o das minhas ambições,
o do meu orgulho, o das minhas necessidades.
E tantos outros Eus, que se agridem e se acariciam,
que se odeiam e que se amam.
Quando vem a noite,
e os meus sentidos se apagam
sofro este conflito indizível.
Entre estes meus amigos, e este meus inimigos,
Entre estes que me prezam, e estes que me desprezam.
Quando vem a noite eu sofro!
Tenho saudades dos meus sentidos.
Acordo, abro os olhos.
Por isso sofro de insônia!
Leio, sonho,
Caminho até o jardim, para sentir algum cheiro da noite.
Vou à geladeira, tomo um copo de leite.
Sonho, me iludo, me belisco.
Busco no sexo a fuga destes meus conflitos.
Porém a noite prossegue,
impassível, inalterada, mansa e sorrateira.
Vai me envolvendo
e de novo vai tomando conta de mim.
Vai apagando de novo os meus sentidos.
De novo eu me encontro comigo!
Em meio ao pesadelo deste mercado de peixes dos meus Eus.
De novo me acordo!
Por isto sofro de insônia!
O círculo se repete por toda a noite, até que venha o dia.
O sol e a luz me devolvem os meus sentidos.
De novo eu sou salvo, para mais um dia viver como posso,
e como o mundo me deixa.
Entrando sempre em choque
com estes meu Eus!
Que à noite voltam
mais amantes ou mais odiosos.
Vem de novo a noite!
E os meus sentidos se apagam.
Por tudo isso,
a noite me invade de medo.
Tenho medo da noite!
Porque tenho medo de mim.
fechar aspas
- José Carlos Fragomeni
Dito por: kay no dia 4 de fevereiro 2004, às 18h01queria rectificar a introdução
lembrei-me primeiro das conversas acerca da importância da solidão e relacionei o poema com elas
depois lembrei-me de ti
:)
Dito por: kay no dia 4 de fevereiro 2004, às 18h03Belo excerto, dolphin.s.
Sem dúvida, é isso.
O homem tem necessidade de se construir, seja essa construção algo simples, como jogar às cartas, como desenvolver uma dissertação filosófica.
O homem foi feito para "agir"... mesmo que essa acção seja pensamento, mas o que interessa é que essa acção é um acto de construção, ainda que possa ser de destruição (toda a destruição é uma construção em si, nem que seja, no limite, pela nova construção que implica se se reduzir tudo a nada).
:)))
Estou a gostar muito deste livro.
Não sendo um livro escrito a pensar na publicação, é extremamente honesto.
Sartre faz constantes auto-análises, além de analisar à minucia todos os que com que ele conviveram neste período de tempo.
É um livro de demorada digestão. Releio várias vezes muitas das suas análises/divagações/... até achar que consegui apreender pelo menos alguma da sua essência. Identifico-me muito com o pensamento de Sartre e este livro está a tornar-se um pouco uma viagem de auto-reconhecimento. Alem de ser uma excelente materia de estudo para o Existencialismo de Sartre :)
Dito por: dolphin.s no dia 4 de fevereiro 2004, às 21h02eu reli várias vezes este excerto e, ainda assim, não sei se lhe apreendi o sentido.
mas fez-me pensar na perversidade da natureza humana: é da natureza humana nascermos involuntariamente mas, uma vez lançados "no mundo" a mesma natureza exige-lhe "vontade", pensamento, acção,...
(erro)exige-lhe = exige-nos
Dito por: margem no dia 4 de fevereiro 2004, às 22h50