fevereiro 02, 2004

A eterna ladainha

Fausto:

Fausto, GoetheEm nenhum hábito deixarei de sentir
A dor da vida estreita que levar.
Sou muito velho para só querer brincar,
E muito novo para sem ânsia existir.
Que tem o mundo hoje para me oferecer?
A renúncia! Deves renunciar:
É essa a eterna ladainha
Que a todos nos ouvidos ecoa
E que, uma vida inteirinha,
Uma voz rouca sem fim apregoa.
Acordo de manhã numa agonia,
E lágrimas amargas só me traz
O tempo que decorre, e em cada dia
Nem um desejo só me satisfaz;
Até do prazer o antegozo
Me estraga com espírito invejoso,
E do sopro criador da alma activa
Com mil esgares hostis também me priva.
E depois, quando a noite nos envolve
E eu no leito caio, angustiado,
Também então a inquietação revolve
Os sonhos que me deixam aterrado.
A divindade que em meu peito mora
Pode agitar-me a alma até ao fundo;
Em minhas forças manda, mas lá fora
Não tem poder sobre as rodas do mundo.
E assim a existência me é um peso,
A morte ansiada, a vida um ódio imenso.


Goethe, in Fausto

Publicado por dolphin.s em fevereiro 2, 2004 02:11 PM
Comentários

pois é, dolphin, a "dor da vida estreita", o ser muito velho para, muito novo para, o ser eternamente desfasado, mas renúncia também não será resposta...

Dito por: margem no dia 2 de fevereiro 2004, às 14h58

não, renúncia nunca é resposta.. renúncia é desistir...

Dito por: dolphin.s no dia 2 de fevereiro 2004, às 15h16

pode ser só mudar de ideias...

Dito por: josephK no dia 2 de fevereiro 2004, às 20h56

mas então não será renúncia ;)

Dito por: dolphin.s no dia 2 de fevereiro 2004, às 20h59

por outro lado, uma resposta - qualquer resposta - não implicará sempre uma renúncia, uma qualquer forma de renúncia?

Dito por: margem no dia 2 de fevereiro 2004, às 22h06

renúncia...sim.

renúncia de todos os subterfúgios que inventámos e insistimos em continuar a inventar...que se chama sociedade, que se designa 'estar inserido socialmente'...

vontade de renunciar a esse legado e só dizer sim à natureza sem transformação... eu tenho cá fantasias com essa renúncia

talvez não tivesse a tentação de pensar no velho demais e novo demais

acredito que o seguinte excerto deixaria de fazer sentido:
"A divindade que em meu peito mora
Pode agitar-me a alma até ao fundo;
Em minhas forças manda, mas lá fora
Não tem poder sobre as rodas do mundo.
E assim a existência me é um peso,
A morte ansiada, a vida um ódio imenso"
o que eu queria que deixasse de haver/ ter sentido?
divindades
poder
forças sobre...
peso
ódio

bomdia!!!
8)

Dito por: margarete no dia 3 de fevereiro 2004, às 09h12


A vida é feita de reunúncias... só renunciando ao todo se pode apreciar o particular... num campo de flores, temos que reununciar a todas as flores para poder apreciar em pleno a beleza de uma apenas.

Dito por: Paulo Silva no dia 3 de fevereiro 2004, às 09h23

"num campo de flores, temos que reununciar a todas as flores para poder apreciar em pleno a beleza de uma apenas."
não concordo, essa é uma visão limitativa da beleza e da capacidade de a apreender

Dito por: margarete no dia 3 de fevereiro 2004, às 09h31


O que eu quero dizer é que para apreciar a beleza em pleno de algo em particular temos que a abstrair do seu contexto... humm.... mas percebo porque não concordas... sim, eu também não concordo... quero dizer: esta afirmação é subjectiva - depende do que se esteja a falar... alguém mais entende ? :)

Dito por: Paulo Silva no dia 3 de fevereiro 2004, às 11h48

sim
8)

"em pleno de algo em particular", eu percebo que tu percebes o que eu percebo 8P

Dito por: margarete no dia 3 de fevereiro 2004, às 12h09

eu concordo; e muito mais com a frase subjectiva que o paulo deixou do que com a explicação que depois deu.

o que se passa (julgo) é que podemos encontrar todo o campo de flores numa só, mas muito dificilmente conseguiremos encontrar uma só num campo cheio delas.

Dito por: josephK no dia 3 de fevereiro 2004, às 16h39

Sim, jk, é isso. ;)

Dito por: Paulo Silva no dia 4 de fevereiro 2004, às 18h23