A Revolução Francesa foi uma revolução analítica e crítica, no sentido de que encarava uma sociedade como um contracto entre indivíduos. O espírito de síntese reaparece com Maistre e Bonald. Opõe-se ao espírito crítico afirmando que a análise destrói aquilo que desmembra. Por exemplo, é o espírito de análise que verá num rei um homem num trono. O espírito conservador responder-lhe-á que, com essa análise, ele destrói precisamente aquilo que constitui o rei: a realeza. O triunfo teórico do espírito de síntese sobre o espírito de análise traduz-se politicamente num triunfo do pensamento conservador sobre o pensamento revolucionário. A sociedade torna-se uma hierarquia de formas indecomponíveis. Se a força revolucionária pôde derrubar as instituições monárquicas foi porque, anteriormente, o espírito analítico as havia dissolvido, destruindo o seu significado. Porque reduzir uma instituição aos seus elementos é ignorar o seu significado, que reside na sua totalidade indecomponível. Sob a influência destas doutrinas oficiais dá-se entre os reformadores e os revolucionários uma dissociação entre o espírito de análise e o espírito de revolução. Os móbiles para modificar a estrutura social permanecem e agravam-se, mas convém mudar de motivos. O espírito de análise está destruído e o que dele resta é açambarcado por velhos liberais voltairianos. É ao espírito de síntese que a nova oposição irá reivindicar os seus motivos. Os conservadores utilizam o espírito de síntese quando declaram que um todo não é redutível aos seus elementos - portanto, que a sociedade não pode reduzir-se ao indivíduos. Assim, o revolucionário já não pensará como em 1879, em reivindicar direitos de indivíduo. Abandona esta concepção do mundo ultrapassada, a Weltanschauung * analítica, que perdeu a sua eficácia de instrumento. Já não irá opor ao todo os seus elementos, à sociedade os indivíduos. Procurará, pelo contrário, uma síntese mais vasta, que englobará em si as diversas sociedades, de forma a poder criticar cada um destas por se revelarem contra essa totalidade, tal como os conservadores criticam os indivíduos por se rebelarem contra a totalidade colectiva.
* Termo alemão: visão ou concepção do mundo. (N. T.)
Jean-Paul Sartre, in Cadernos de Guerra (1939-1940)
Não é das obras que mais aprecio do *nosso* amigo Sartre. No entanto Sandrita... "reduzir uma instituição aos seus elementos é ignorar o seu significado" - TRUE. Mas eu diria que, no contexto específico do nosso governo, eles próprios o fazem, achando-se acima e a instituição em si.
É triste, mas vai aí uma crise...
E que obras são as tuas preferidas? :)
quanto ao que dizes.... concordo.... eles são o poder, a síntese do poder...
enfim...
Em Silêncio me fico. A ler um bocadinho, se não houver inconveniente. É que passei por aqui...
Dito por: eduardo no dia 30 de janeiro 2004, às 14h02Foi uma resposta Francesa, ao poder da Inglaterra...!
Dito por: Eu e a Minha Sombra ! no dia 31 de janeiro 2004, às 00h59Foi uma resposta Francesa, ao poder da Inglaterra...!
Dito por: Eu e a Minha Sombra ! no dia 31 de janeiro 2004, às 00h59Gosto especialmente d'As Palavras de Sartre.
Como diria o meu bom Antonin Artaud,
"A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida."
É assim sandrita... embora o existencialismo de sartre e o surrealismo de artaud possam parecer muito distantes, a coisa não é bem assim. Sartre, ele mesmo, era um trágico. Mas um trágico altivo, nunca lamechas. "As Palavras" foi a sua derradeira missão, a mais íntima e verdadeira. Ele coloca-se em cheque e faz de si o personagem do palco da vingança.
Vingar as memórias e o (desas)sossego.
....
Dito por: Wyrm no dia 31 de janeiro 2004, às 05h02Ah! As Palavras!!! :)))
Também gostei muito! Encontrei-o o ano passado, depois de alguma caça em alfarrabistas :)
Dito por: dolphin.s no dia 1 de fevereiro 2004, às 18h13