janeiro 27, 2004

A Exactidão das Coisas

A exactidão das coisas, a plena adequação de cada uma aos seus contornos, é algo que jamais se verifica, indo de par a sua variável precisão com a maior ou menor proximidade a que se encontrem do presente, dimensão ideal para que, nos seus arredores, todas elas tendem a seu modo, sem que alguma vez a possam atingir. Há entre elas desencontros decorrentes da inconstante resistência que, em virtude de factores como a substância, a antiguidade ou as funções que desempenham, oferecem ao futuro. Os seus contornos, mais ou menos inexactos, são pois fruto, em grande parte, da presença do futuro, que nelas, em ritmos e velocidades desiguais, encarna com um rumor às vezes quase imperceptível.

Em certas circunstâncias, os objectos estabelecem entre si contactos que conduzem a reajustamentos dos diversos ritmos e densidades com que o futuro através deles se precipita, provocando assim alterações imprevisíveis a que vamos procurar motivos para indagação e espanto. Há ocasiões em que o futuro é espesso, outras mais rarefeito, alturas em que tem qualquer coisa de agudo, percuciente, outras algo de abismal, vertiginoso. Através dos objectos, de que, a um certo nível, podemos assim dizer que é uma componente essencial e impossível de isolar, todo o futuro flui na mira de um presente que incessantemente se desloca.



Luís Miguel Nava, in o futuro em anos-luz, antologia de poesia portuguesa, p. 156, Quasi Edições, 2001

Publicado por jm em janeiro 27, 2004 08:22 PM
Comentários

fantástico texto, d.

absolutamente fantástico, tá-me a apetecer descarná-lo todinho, aliás... é o que fiz a cada ideia que li

para dizer mais teria de repetir o texto, e tá mm a apetecer

(ontem, falava com uma amiga, a oportunidade e as oportunidades... pano para mangas... agora este texto)

uma vez mais, d.

bomdia!
8)

Dito por: margarete no dia 28 de janeiro 2004, às 09h37

bom dia :)

este texto é, objectivamente, um poema. começa e acaba e encerra em si toda a dimensão do seu significado :)

bjo

Dito por: jm no dia 28 de janeiro 2004, às 09h42

LOOOOL!!!

és tu!...
mas quando é que eu me habituo a ler o nomezinho após 'afixado por'?

prontuch!
prontuch!

'jay éme' num chamu nomes ao poema...

er... se "começa e acaba e encerra em si toda a dimensão do seu significado" como tu dizes, não posso brincar cum ele um bocadinho?

8|

Dito por: margarete no dia 28 de janeiro 2004, às 10h00

podes.

essa citação era para revelar que todo o significante está aqui (a utilização de significado está errada), porque o texto não tem antes nem depois. Logo todas as ilações, sentimentos, brincadeiras são legítimas.. talvez ainda mais, do que se supondo ser um excerto. :)

sorry if it was a bit of a confusion

Dito por: jm no dia 28 de janeiro 2004, às 10h26

xculpado!

8)

ó pá, hoje é um daqueles dias!

Dito por: margarete no dia 28 de janeiro 2004, às 10h45

estou rodeado desses dias :) eheheh :|

Dito por: jm no dia 28 de janeiro 2004, às 10h51

duvido!

ponho até a minha mão no fogo!

Dito por: margarete no dia 28 de janeiro 2004, às 10h52

n ponhas... eu trabalho com muitas mulheres.

Dito por: jm no dia 28 de janeiro 2004, às 10h56

pois... disseste bem 'rodeado'

8|


e, também, fosse isso, fosse isso

é mais "desencontros decorrentes da inconstante resistência que, em virtude de factores como a substância, a antiguidade ou as funções que desempenham" fazem com que eu saiba o que se aproxima, precismante pela forma como tenho conduzido "em ritmos e velocidades desiguais", não obstante; "em certas circunstâncias, os objectos estabelecem entre si contactos que conduzem a reajustamentos dos diversos ritmos e densidades"

8|

o'well

Dito por: margarete no dia 28 de janeiro 2004, às 11h08