Pensei, hoje, que é na verdade uma asneira criar cabelos brancos, a propósito de tudo e de nada. As coisas nunca tiveram importância suficiente para isso; mudam, terminam e, sobretudo, no fim de contas, todo o mundo morre. Isso resolve tudo.
— Ah! Isso é apenas uma maneira de fugir aos problemas! — disse Robert.
Interrompi-o:
— A não ser que os problemas não sejam mais do que uma maneira de fugir à verdade. Evidentemente — acrescentei—, quando decidimos que é a vida que é verdadeira, a ideia da morte parece uma fuga. Mas reciprocamente...
Robert sacudiu a cabeça:
— Há uma diferença. Prova-se que escolhemos acreditar na vida, vivendo; se acreditarmos sinceramente que a morte é a única verdade, deveríamos matar-nos. Na realidade, nem sequer os suicidas o fazem com essa ideia.
— Talvez continuemos a viver por estarmos aturdidos e sermos cobardes — disse eu. — É o mais fácil. Mas não prova nada.
— Primeiro, é importante que o suicídio seja difícil — disse Robert. — E, depois, continuar a viver não é apenas continuar a respirar. Ninguém consegue instalar-se na indiferença. Tu gostas de coisas, detestas outras, indignas-te, admiras: isso implica que reconheces o valor da vida. — Sorriu: — Sinto-me tranquilo. Ainda não terminámos a nossa discussão sobre os campos nem sobre tudo o resto. Sentes-te impotente, como eu, como toda a gente, perante certos factos que te acabrunham, e então refugias-te num cepticismo generalizado; mas não é nada de grave.
Não respondi. Evidentemente, amanhã discutiria de novo sobre muitas coisas: isso provaria que elas deixariam de me parecer insignificantes?
Simone de Beauvoir, in Os Mandarins
a morte é apenas o começo.
Dito por: ux no dia 22 de maio 2004, às 16h42