janeiro 15, 2004

A importância que nos damos


Simone d eBeauvoir«Tomamo-nos muito a sério. Para dizer a verdade, os nossos actos não têm muita importância; este nosso inundo não tem muita importância; é fibroso, poroso, sem consistência.» Os transeuntes pareciam apressados, através da bruma, como se fosse importante chegar um pouco mais cedo aqui ou ali. Vão acabar por morrer e eu também; isto torna a vida uma coisa efémera. Nada se pode contra a morte; portanto, nada se pode fazer por ninguém, nada se deve a ninguém. É inútil envenenar a própria existência.


Simone de Beauvoir, in Os Mandarins

Publicado por dolphin.s em janeiro 15, 2004 02:37 PM
Comentários

Insisto em discordar:

"Vão acabar por morrer e eu também; isto torna a vida uma coisa efémera."

para mim:

vamos acabar por morrer... parece que sim, né? então torna a vida mais passível de ser vivida enquanto vida... depois vive-se a morte. não meço a efemeridade da vida pela certeza da morte mas pela negação com que se insiste vivê-la tantas vezes.


"Nada se pode contra a morte;"

pois não. mas muito se consegue a favor da vida.


"portanto, nada se pode fazer por ninguém, nada se deve a ninguém."

tudo se pode fazer por si próprio, mostrar a alguém que tb o pode fazer... começa-se por um sorriso e pela vontade de estar bem... logo logo (mm com os merdosos problemas que inventamos uns para os outros)logo logo nos sentimos a sorrir.


"É inútil envenenar a própria existência." CONCORDO PLENAMENTE SIMONE!

um beijo!

8)

Dito por: margarete no dia 15 de janeiro 2004, às 15h01

"os nossos actos não têm muita importância"

é isto que me chateia: não acredito na história da borboleta mexer as asas no japão e haver um tornado aqui.
as nossas dimensões são ridiculamente pequenas. não somos mais do que um acidente da natureza, apenas mais um animal que teima em se achar mais do que isso.

sinto-me cansada.. é tudo...
olhas para o lado, vês gente a correr, gente a gritar, gente a convencer-se que vive, e tens consciência que tudo é inutil. o único destino da vida é a morte. o que fazemos por cá apenas serve para "matar" o tempo até chegar esse dia. vida e morte são apenas as 2 faces de uma mesma moeda.

não deixo de fazer as coisas que me dão prazer, não deixo de procurar algo que me faça sentir bem, continuo a amar, mas tudo é cheio de uma sensação de inutilidade e com um prazo de validade determinado.

passamos o tempo a tentar ser, esquecendo-nos que apenas existimos.

Dito por: dolphin.s no dia 15 de janeiro 2004, às 15h46

como se a existência já estivesse "envenenada" à partida...

Dito por: margem no dia 15 de janeiro 2004, às 16h21

Não consigo deixar de sublinhar a citação do Céline que aparece ai na secção do citador, neste Silêncio:

"Quando não se tem imaginação morrer é pouca coisa, quando se tem, morrer é demasiado"

por analogia inversa: quando falha a imaginação a "vida" preenche... quando ocorre o inverso, a vida não chega... e o vislumbre da morte, mesmo não assustando, revolta profundamente

Dito por: kay no dia 15 de janeiro 2004, às 16h44

Para mim, este texto da Beauvoir vale pelo "tomamo-nos muito a sério"

a mãmã margarete é que hoje acordou com o rabo destapado, ao que parece :))))

Dito por: Paulo Silva no dia 15 de janeiro 2004, às 16h53

dolphin, estava a tentar escrever sobre o texto, mas iria andar em círculos. e esta questão do «ser» e do «existir»... creio que a entendo em termos muito genéricos, mas não em termos filosóficos. se «existência» é matéria/forma e «ser» é essência, então eu acredito que todos «somos». acontece é que podemos não gostar do nosso «ser», ou gostar mas ainda assim (é insatisfeita a natureza humana) desejar ser outro «ser». círculos...

quando se sucedem dias particularmente difíceis, é inevitável o cansaço. em relação a muitas coisas. mas também esses momentos são efémeros, como tudo na vida.
uma coisa é certa: acreditarmos ser mais do que somos? não. acreditar que somos o que somos. tomarmo-nos a sério q.b.
cada pessoa, bicho pequeno neste grande universo, é um ser único e irrepetível.

Dito por: margem no dia 15 de janeiro 2004, às 21h10

ó carago!

BOMDIA!

nã sei que interpretações se passaram para aqui... nã me parece estarmos necessariamente me desacordo. não sei ver muito bem a diferença nas posições, ajudem-me a perceber, expliquem.

ó sr paulo! acordar com o rabo destapado? porquê?! pareço irritada? olha que pelo contrário...
e eu também acho que nos tomamos demasiado a sério mas, enquanto isso, olha divirtamo-nos!

8)

Dito por: margarete no dia 16 de janeiro 2004, às 08h34

Isto dá para avaliar também os outros. Já pensaram nos que se consideram importantes? Afinal não o são assim tanto, segundo a S.B. Pensam que são....e só são se nós lhe concedermos a tal importância, sem ela...chapéu!
Mas para avaliar bem o nosso valor nada melhor do que embarcar num avião (dos que voam a baixa altitude) e olhar cá para baixo: parecemos formigas e as nossas casas são pequenissimas. Imaginem se puderem! Visto bem lá de cima, então não somos grande coisa! Mas os "importantes" também não...

Dito por: leonor no dia 17 de janeiro 2004, às 17h13