abril 23, 2004

Segredo de Estado

Para lá dos medicamentos, também a alimentação e muitas outras coisas se tornaram segredo de Estado. Uma das mais fortes objecções contra a democracia, oriunda do tempo em que as classes proprietárias a formulavam, porque receavam ainda, não sem alguma razão, o que uma democracia verdadeira pudesse significar para elas, era a evocação da ignorância da maior parte das pessoas, um obstáculo efectivamente redibitório que impedia conhecerem e conduzirem as coisas que lhes dizem respeito. Hoje em dia, essas classes sentem-se mais descansadas devido às vacinas recentemente descobertas contra a democracia, no fundo pequenas doses residuais com que pretendem tranquilizar-nos: porque as pessoas desconhecem tanto o que lhes é posto no prato como os mistérios da economia, as negociações para a redução de armas estratégicas como as subtis «escolhas entre modelos de sociedade», propostas apenas para que o actual continue e tudo recomece mais uma vez.
Quando o segredo vai ao ponto de poder estar num prato à nossa frente, não é possível acreditar que toda a gente desconheça todas as coisas. Os especialistas, contudo, não querem contribuir, no interior do espectáculo, para fazer circular verdades tão perigosas. Calam-nas. Porque é aí que todos jogam os seus interesses. E o indivíduo real, assim isolado, já não confiando sequer no seu próprio gosto e nas suas próprias experiências, passa a confiar apenas numa farsa socialmente organizada. Essas verdades, poderiam os sindicatos dizê-las? Se o fizessem seriam considerados irresponsáveis - e revolucionários. Os sindicatos defendem, em princípio, os interesses dos assalariados no quadro do próprio salariado. Defendiam, por exemplo, o «direito ao bife». Mas era um bife abstracto (agora defendem, ou melhor, não defendem, uma coisa ainda mais abstracta, o «direito ao trabalho»). Apesar de o bife, nos dias de hoje, ser quase inexistente enquanto realidade concreta, os especialistas não deram, pelo menos oficialmente, pelo seu desaparecimento.
Isto porque o bife que ainda vai conseguindo existir clandestinamente, proveniente de animais criados sem produtos químicos, tem um preço obviamente mais elevado e porque a revelação da sua simples existência abalaria fortemente os alicerces do templo da «política contratual». Na nomenklatura ocidental sabe-se agora muito bem o que acontece para termos de pagar a peso de oiro alimentos saudáveis.


Guy Debord, in Enganar a Fome


Publicado por dolphin.s em abril 23, 2004 01:55 PM
Comentários

O que Debord parece querer dizer é que o problema não reside nos "segredos", mas sim na estupidez. Se não foi isso que ele pretendeu, pretendeu mal :)

Dito por: Luís F. Simões no dia 23 de abril 2004, às 18h52

Há "coisas " que não convém que o "povo saiba"...
Abraço, WB

Dito por: whiteball no dia 23 de abril 2004, às 19h24