A burguesia já o tinha dito há muito: «A História foi, mas já não é.» (Marx) A partir do momento em que burocratiza o seu domínio, acrescenta mais isto: «O gosto foi, mas já não é.» E nunca mais deverá voltar a haver a possibilidade de uma história individual através da qual se descobriam e formavam os gostos. É-se obrigado a aceitar tudo o que é colocado, sem distinção, perante os nossos olhos, sem que seja possível fazer comparações que estabeleçam um qualquer critério de gosto. Passam só a valer as proclamações de especialistas que, por exemplo, nos mostram o radioso futuro do legume irradiado e asseguram mesmo que «os legumes nunca foram tão bons». (L'Express, 6-12 de Setembro de 1985) Neste novo «look» da sociedade do espectáculo, cada «look» individual, por mais diversificado que se apresente, acaba sempre recuperado por ela; porque é ela que detém todas as fontes. E assim esta «mistela de carne», que é aquilo com que o assalariado pobre engana a fome, e que ele ingere de pé, num cenário de quiosques de gare, pode até afirmar-se sinal de um modernismo de ponta, mais escolhido do que suportado, por parte dos que comem McDonald's e pensam Actuel.
Guy Debord, in Enganar a Fome