Dizem que não custa nada, que não se sofre, que é um fim suave, que a morte desta maneira está muito simplificada.
Ei! O que é então esta agonia de seis semanas e este estertor de um dia inteiro? Que são as angústias deste dia irreparável, que se escoa tão lentamente e tão depressa? Que escala de tortura é esta que conduz ao cadafalso?
Aparentemente não se trata de sofrimento.
As convulsões não são as mesmas, quer o sangue se esgote gota a gota, ou a inteligência se extinga ideia após ideia?
E depois, não se sofre, têm a certeza? Quem lhes disse? Alguém contou que uma cabeça cortada se tenha erguido, ensanguentada, do cesto de verga, e tenha gritado ao povo: — Não custa nada!
Já algum morto lhes veio agradecer e dizer: foi uma boa invenção. Fiquem por aqui. E uma boa máquina.
Terá sido Robespierre? Ou Luís XVI?...
Não, nada! Menos de um minuto, menos de um segundo e é coisa feita. — Alguma vez se puseram, só em pensamento, no lugar de quem ali está no momento em que o pesado cutelo se abate sobre a carne, rasga os nervos, quebra as vértebras... Mas quê! Meio segundo! A dor é escamoteada... Horror!
Victor Hugo, in O Último Dia de um Condenado