O relógio acaba de bater horas. Não sei quantas. Ouço mal as pancadas do relógio. Sinto nos ouvidos o som de um órgão; são os zumbidos dos meus últimos pensamentos.
Naquele momento supremo em que me refugio nas minhas recordações, revejo, horrorizado, o meu crime; mas gostaria de me sentir ainda mais arrependido. Sentia mais remorsos antes da condenação; agora, creio que só há lugar para pensamentos de morte. Gostava, todavia, de me sentir muito arrependido.
Depois de pensar por uns momentos no que a minha vida tem de passado, e de regressar ao golpe de cutelo que daqui a pouco lhe vai pôr termo, arrepio-me como perante algo de novo. Bela infância a minha! Bela juventude a minha! Uma peça de tecido dourado cuja extremidade se ensanguenta. Entre o passado e o presente corre um rio de sangue, o sangue do outro e o meu.
Se alguém ler a minha história, não poderá acreditar que tantos anos de inocência e felicidade tenham conduzido a este ano execrável, que começa com um crime e termina num suplício; a história afigura-se desconexa.
E, no entanto, miseráveis leis e miseráveis homens, eu não era um malvado!
Oh! Morrer dentro de poucas horas, e pensar que há um ano, neste mesmo dia, era livre e puro, dava os meus passeios de Outono, vagueava sob as árvores, e caminhava sobre as folhas caídas!
Victor Hugo, in O Último Dia de um Condenado
Nããããã.... este texto do Victor Hugo não me convence mesmo nada - para uma descrição de condenado que vai ser executado, só vivendo mesmo a experiência - vê-se que ele não a viveu - é preciso ir a Dostoievski, esse sim, viveu mesmo essa experiência e sabe relatá-la com verdadeira mestria.
Não quero tirar o mérito ao mestre Hugo, mas não se pode ser bom em tudo.
Acho este discurso dele um pouco vilgar. Desculpem lá a minha impertinência (hoje fui eu que acordei com o rabo destapado) :))
Dito por: Paulo Silva no dia 16 de janeiro 2004, às 11h51he he... os silenciosos andam a apanhar frio...
já cá venho dizer do texto.
Dito por: margarete no dia 16 de janeiro 2004, às 12h05Lê o livro gajo Citador :P
[modo picanço on] é bem melhor do que o Noites Branca [modo picanço off]
ehehhe
é mto bom, a sério... passa bem a ideia que ele queria passar.
As primeiras edições sairam anónimas, tipo panfleto contra a pena de morte.
Era um assunto que o preocupava muito e do qual não se conseguia desligar.
Eu dou-te o "Noites Brancas" !!!! Arghhh !!
Eu ontem estive com esse livro na mão... mas preferi comprar o livro do Mário de Carvalho.
Ondas...
Dito por: Paulo Silva no dia 16 de janeiro 2004, às 12h21Esse há-de chegar a casa um dia destes... tb tou com vontade de o ler, mas acho que vou primeiro o Troquemos algumas ideias sobre o assunto (não tenho a certeza absoluta do nome ehehehe)
dá-me a sensação que este condenado arranjou maneira de se 'justificar' por uma vida que terá considerado qualquer coisa como 'bela demais', vai daí... ensanguenta a pontinha do pano doirado...
faz-me pensar na cena do segredo que se quer guardado de todos, por tão terrífica a sua verdade. talvez ninguém tenha desvendado o deste condenado que arranjou forma...
Se queres que te diga, ambos têm estilos muito parecidos (pois eu já tinha lido esse).
Eu só comprei este porque é muito actual e já inclui sátiras sobre telemóveis e tudo eh eh eh.....
Mas o estilo é exactamente o mesmo... quando chegar ao final digo-te se vale mesmo a pena ler os dois ou não... se calhar lendo só um fazes a festa.
Dito por: Paulo Silva no dia 16 de janeiro 2004, às 12h29CUIDADO!!!!!
Tenham muito cuidado com as críticas ao GRANDE MESTRE.
Eu torno-me TREMENDAMENTE PERIGOSO quando poem em causa o MAIOR ESCRITOR DE TODOS OS TEMPOS.
Dito por: SIMAK no dia 19 de janeiro 2004, às 08h58esse livrito do Hugo é porreiro.
Dito por: josephK no dia 20 de janeiro 2004, às 08h41